quarta-feira, outubro 15, 2008

The Aviator (2004)

de Martin Scorsese

Esteve para ser realizado por Michael Mann, mas este que vinha de dois biopics (Ali e The Insider) preferiu assumir a produção e dar lugar ao mestre vivo, que é Martin Scorsese. E desde mais, este é um filme scorsesiano, sem tirar nem pôr. Ao contrário do que foi dito na altura da sua estreia, este filme é profundamente anti-académico. Senão repare-se no tratamento cromático que duplica a técnica cinematográfica referente a cada época que o filme retrata. Ou então a obcessiva atenção ao detalhe, com que a frenética câmara de Scorsese, nos brinda. Ou ainda, a montagem perfeita de Thelma Schoonmaker, com muito de virtuoso e original. E que dizer da composição assombrosa de Leonardo Di Caprio (no seu grande papel até à data), que flutua entre um idealismo inspirador, e uma assustadora demência. E é precisamente no trágico Howard Hughes que a ponte que liga esta obra, a outros martires de Scorsese, fica completa. Nele há toques de La Motta, Bickle, Pierce e…Cristo. Tal como eles, Hughes é um personagem torturado pelos seus demónios interiores, que será forçado a passar por um doloroso calvário, até atingir uma espécie de redenção, ou se preferirem, auto-descoberta.

Mas, apesar de todas as suas qualidades, The Aviator, não é um filme isento de ligeiras falhas. O seu ritmo e tom, são algo desiquilibrados, devido a um início excecivamente arrastado, onde Scorsese se perde nas proezas aeronáuticas, amorosas e cinematográficas, do excentrico milionário. Mas nada que não se perdoe facilmente. Assim que assistimos aos primeiros sintomas de loucura do personagem (aquela cena na casa de banho) e nos apercebemos do verdadeiro tema do filme, que esteve sempre ali, debaixo daquela superfície aparentemente perfeita, somos levados numa viagem aos infernos, como só Scorsese sabe fazer. Para acabar, não posso deixar de referir aquele final, tão simbólico, irónico e amargo em que um descontrolado Howard Hughes, olha para o seu reflexo num espelho (tal como em Raging Bull) e aceita o seu “way of the future”, num dos finais mais doridos dos ultimos anos. Um grande filme, de um dos cineastas mais apaixonantes, da história da 7ª arte.

6 comentários:

Hugo disse...

Não consigo ter uma opinião sobre este filme,pois adormeci das duas vezes que o tentei ver...

Luís disse...

Dá-lhe uma 3ª oportunidade Hugo. Vais ver que vale a pena. :)

Red Dust disse...

Não é um filme brilhante, mas há um enorme e intenso trabalho de Di Caprio. Provavelmente até será o seu melhor papel!!!!!

8/10.

Abraço.

Luís disse...

é verdade red. De acordo absolutamente, o filme tem as suas falhas, mas di caprio e scorsese brilham tão intensamente que facilmente esquecemos as lacunas

abraço cinéfilo

José Oliveira disse...

revi no outro dia. melhorou bastante, achei-o tão bom, formalmente, como qualquer outro dos seus grandes filmes, ao contrário dos muitos que disseram o contrário. mas o que achei genial foi a interpetação do Di Caprio, a maneira como ele vai enlouqueçendo. na altura da estreia não tive essa percepção, mas ele está enorme, e a maneira como ele é captado coloca-o ao lado dessa grande tradição do "bigger than life" que vai de Welles ao Day Lewis, por exemplo, mas mais intimo, mais tocante e menos frio.

Luís disse...

Dicaprio está sem duvida sublime. A forma como se perde no personagem, com todos os tiques, gestos, esgares, olhares de um verdadeiro maniaco compulsivo, aliada à dôr imensa que os seus olhos transmitem, fazem desta uma das grandes interpretações num filme do marty.

Abraço cinéfilo

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