
À partida esta obra de época teria tudo para ser um filme rigoroso mas artificial, pois a sua temporalidade e ambiente nas mãos de um cineasta (injustamente) acusado de distante e cerebral, poderia dar azo a um filme frio. Mas que grande engano. Barry Lyndon será provavelmente será o filme mais humano e tocante da carreira de Stanley Kubrick. A história do Barry Lyndon do título é magistralmente incarnada por um inesperado Ryan O’Neal assim como muito bem secundada pelo restante elenco. A história deste irlandês que nascendo numa família da burguesia provinciana, se lança ao mundo tendo um percurso de vida alucinante, em que conhece a guerra, tornando-se um vigarista e acabando por ascender à nobreza graças a um casamento por conveniência. A ajudar (e de que maneira) no relato da sua história existe uma voz off irónica, desarmante e reveladora dos acontecimentos futuros na vida de Lyndon. E como é seu apanágio habitual, Kubrick é brilhante quer na técnica, quer no lado formal e pictórico. As suas composições criam imagens mágicas (as famosas cenas filmadas à luz das velas são um prodígio fotográfico), a gestão do ritmo narrativo e das tensões da mise-en-scene é magistral e a fantástica escolha e gestão musical de temas clássicos é brilhante (indo dos Chieftains, a Schubert e a Vivaldi). Todos esses factores acumulam e ajudam a fazer um filme poderoso. Mas se a produção é faustosa, o guarda-roupa exuberante ou cenários imponentes, nas mãos de um cineasta “cerebral ou frio”, isso poderia facilmente esmagar os personagens, e Kubrick não o permite. O seu Lyndon está condenado desde o início, pois como diz o narrador, ele tinha os defeitos das suas qualidades. E o que é impressionante na abordagem de Kubrick é a forma justa como ele filma o percurso descendente do seu herói(?), sem nunca pestanejar ou fugir dos momentos mais emocionais e sem caír nas armadilhas do sentimentalismo. Convenceu-me e de que maneira. Um dos filmes maiores de um monstro do cinema.







Uma das últimas obras do polémico Marco Ferreri, La Carne é, à semelhança de filmes como Chiao Maschio e La Grande Bouffe, a crónica da auto-destruição de um homem, causada pela sua relação com uma sensual mulher. E em La Carne, Ferreri vai longe nos seus temas recorrentes de solidão, não comunicação entre sexo(s) e angústia existencial masculina. O seu Paolo leva ao limite a obsessão pela possessão do sexo feminino e num final que tem tanto de surpreendente como de perturbador, Ferreri torna explícito o tema desta obra através de outro dos seus tópicos favoritos, a relação entre o sexo e a comida. Se a super-mulher pela qual o pobre Paolo se apaixona, é voluptuosa, carnal e sexual, ela é também inacessível e inatingível. Durante todo o filme há uma luta pela possessão desta deusa, e uma sequência num talho, avisa-nos que esta luta será até às últimas sequências. Tal como The Last Tango in Paris, também La Carne fala da angústia de meia-idade masculina, através de cenas tórridas, escandalosas e chocantes. A diferença entre o clássico de Bertolucci e esta obra, é que aqui temos o humor sarcástico e caustico de Ferreri, que limitado a uma casa e meia dúzia de actores, cria um microcosmos e uma metáfora, para todas as relações possessivas. La Carne funciona como um interessante e perspicaz tributo à superioridade feminina e uma feroz crítica à bestialidade masculina. Um filme insólito na obra de um realizador injustamente esquecido. 












Com um ritmo frenético a espaços, mas vazio, quer no contéudo quer na forma gasta, este Mission Impossible marca a estreia de J.J. Abraams no mundo do cinema, depois do estrondoso sucesso do seu Lost. Tom Cruise repete o papel do agente secreto Ethan Hunt, acompanho por um elenco luxuoso, onde além de um vilão sub-aproveitado, encarnado por um surpreendente Phillip Seymor Hoffman, se incluem nomes como os de Billy Cudrup, Ving Rhames, Jonathan Ryes Myers e Laurence Fishburne. O problema maior deste filme, parte do guião prevísivel e desinspirado, sendo a película salva a espaços pelo talento de Abrams, especialmente na direcção das cenas de acção. E nesse capítulo, uma nota de mérito para a sequência de resgate onde Ethan luta contra aviões, helícopteros e rockets. Mas MI-III tem clara fraquezas. Em particular a resolução arranjada para solucionar aquele brilhante início. Se a abertura do filme era plena de tensão, violência e desespero, a sua resolução, é cheia de clichés, twists previsíveis e concessões comerciais. No seu geral bem confeccionado, trata-se de um filme que apesar de ter os ingredientes certos, deixa a um sabor a muito pouco e candidato ao filme mais fraco deste franchising.

O que Martin Scorsese consegue fazer com o seu último filme, é mais uma prova da sua enorme mestria (e cinéfilia) cinematográfica. Pegando num guião engenhoso, mas com uma primeira parte banal, Scorsese assina com Shutter Island, um dos seus filmes mais labirínticos e perturbadores. Esta história de uma dupla de detectives que buscam um paciente mental desaparecido de um asilo de loucos, poderia descambar para um daqueles corriqueiros thrillers, onde o mistério e os clichés abundam. Nas mãos do mestre, esta matéria prima é elevada e dirigida para as suas temáticas predilectas. E o que é admirável, é vêr todos os temas da sua carreira lá bem vincados e complementando a narrativa de Shutter Island. A paranóia de Raging Bull e Goodfellas, a loucura de 












