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domingo, outubro 17, 2010

Barry Lyndon (1975)


de Stanley Kubrick

À partida esta obra de época teria tudo para ser um filme rigoroso mas artificial, pois a sua temporalidade e ambiente nas mãos de um cineasta (injustamente) acusado de distante e cerebral, poderia dar azo a um filme frio. Mas que grande engano. Barry Lyndon será provavelmente será o filme mais humano e tocante da carreira de Stanley Kubrick. A história do Barry Lyndon do título é magistralmente incarnada por um inesperado Ryan O’Neal assim como muito bem secundada pelo restante elenco. A história deste irlandês que nascendo numa família da burguesia provinciana, se lança ao mundo tendo um percurso de vida alucinante, em que conhece a guerra, tornando-se um vigarista e acabando por ascender à nobreza graças a um casamento por conveniência. A ajudar (e de que maneira) no relato da sua história existe uma voz off irónica, desarmante e reveladora dos acontecimentos futuros na vida de Lyndon. E como é seu apanágio habitual, Kubrick é brilhante quer na técnica, quer no lado formal e pictórico. As suas composições criam imagens mágicas (as famosas cenas filmadas à luz das velas são um prodígio fotográfico), a gestão do ritmo narrativo e das tensões da mise-en-scene é magistral e a fantástica escolha e gestão musical de temas clássicos é brilhante (indo dos Chieftains, a Schubert e a Vivaldi). Todos esses factores acumulam e ajudam a fazer um filme poderoso. Mas se a produção é faustosa, o guarda-roupa exuberante ou cenários imponentes, nas mãos de um cineasta “cerebral ou frio”, isso poderia facilmente esmagar os personagens, e Kubrick não o permite. O seu Lyndon está condenado desde o início, pois como diz o narrador, ele tinha os defeitos das suas qualidades. E o que é impressionante na abordagem de Kubrick é a forma justa como ele filma o percurso descendente do seu herói(?), sem nunca pestanejar ou fugir dos momentos mais emocionais e sem caír nas armadilhas do sentimentalismo. Convenceu-me e de que maneira. Um dos filmes maiores de um monstro do cinema.

quarta-feira, maio 05, 2010

The Thin Red Line (1998)

de Terrence Malick



FILMES DA MINHA VIDA XVII

No cinema de guerra existe o pré The Thin Red Line e o após The Thin Red Line. E uma coisa é certa, nunca Hollywood fez um filme de guerra tão singular, idiossincrático e rico. Este é daquelas fitas que a cada visionamento melhora e melhora e melhora cada vez mais tal é a sua riqueza temática e cinematográfica. O responsável deste milagre é um senhor chamado Terrence Malick, o cineasta que em 20 anos de carreira assinou aqui o seu terceiro filme. E que filme! The Thin Red Line aborda os clássicos temas do género de guerra e segue um grupo de recrutas americanos que tentam tomar um monte ocupado pelo inimigo japonês na batalha de Guadalcanal. Esses soldados são interpretados por um elenco de estrelas como raramente se viu (e merecem especial destaque Nick Nolte, Elias Koteas e o estreante Jim Caviezel no pele do espiritual Witt). E se Mallick e o seu director de fotografia John Toll filmam as batalhas com um fulgor e visceralidade empolgantes, não é aí que reside o trunfo maior desta película.

O que Malick nos propõe é o mergulho nos pensamentos e na essência dos seus soldados, através das suas variadas vozes em off, transportando-nos ao seu mundo interior reflexivo, espiritual e emocional. Os seus personagens questionam o papel do homem na natureza, a essência violenta da guerra, a sua própria desumanização ou pura e simplesmente o sentido da vida. Teologia funde-se num cenário de morte, onde os vários planos da natureza e da vida selvagem de Guadalcanal sugerem o olhar de Deus perante a insanidade da sua criação…o Homem. Isto tudo acompanhado por uma montagem brilhante criando um ritmo hipnótico que prende o espectador desde o 1º segundo. Junte-se lhe o dom de Malick para a composição de imagens marcantes e a banda sonora sublime de Hans Zimmer (a sua melhor?), e temos um filme transcendental. Scorsese chamou-lhe o 2º melhor filme dos anos 90, para mim é o 1º melhor filme dos anos 90 e o melhor filme de guerra de sempre. Genial? Não é mais que isso. The Thin Red Line é celestial…

terça-feira, abril 13, 2010

La Carne (1991)

de Marco Ferreri

Uma das últimas obras do polémico Marco Ferreri, La Carne é, à semelhança de filmes como Chiao Maschio e La Grande Bouffe, a crónica da auto-destruição de um homem, causada pela sua relação com uma sensual mulher. E em La Carne, Ferreri vai longe nos seus temas recorrentes de solidão, não comunicação entre sexo(s) e angústia existencial masculina. O seu Paolo leva ao limite a obsessão pela possessão do sexo feminino e num final que tem tanto de surpreendente como de perturbador, Ferreri torna explícito o tema desta obra através de outro dos seus tópicos favoritos, a relação entre o sexo e a comida. Se a super-mulher pela qual o pobre Paolo se apaixona, é voluptuosa, carnal e sexual, ela é também inacessível e inatingível. Durante todo o filme há uma luta pela possessão desta deusa, e uma sequência num talho, avisa-nos que esta luta será até às últimas sequências. Tal como The Last Tango in Paris, também La Carne fala da angústia de meia-idade masculina, através de cenas tórridas, escandalosas e chocantes. A diferença entre o clássico de Bertolucci e esta obra, é que aqui temos o humor sarcástico e caustico de Ferreri, que limitado a uma casa e meia dúzia de actores, cria um microcosmos e uma metáfora, para todas as relações possessivas. La Carne funciona como um interessante e perspicaz tributo à superioridade feminina e uma feroz crítica à bestialidade masculina. Um filme insólito na obra de um realizador injustamente esquecido.

segunda-feira, abril 12, 2010

Bring me the Head of Alfredo Garcia (1974)

de Sam Peckinpah


Filme maldito de um cineasta amaldiçoado, este western contemporâneo, seria a última vez que Peckinpah filmaria no seu amado México (após Major Dundee, Wild Bunch e The Getaway). A história é simples, Bennie é um pianista alcoólico que tem a sua oportunidade de enriquecer. Para isso terá de entregar a cabeça do malogrado Alfredo Garcia a um poderoso rancheiro mexicano. Pelo caminho, terá de descobrir a sua sepultura, cortar-lhe a cabeça, fugir aos familiares de Alfredo e lutar contra os mafiosos que o perseguem. Se a premissa é macabra, a sua execução por parte de Peckinpah, é violenta, cómica e trágica. Bennie é um torturado alter ego do seu realizador. Aliás, o próprio Warren Oates, admitiu na altura, que se tinha inspirado em Peckinpah para criar a sua distorcida personagem, tais eram as semelhanças com a persona do seu realizador. O seu Bennie está no fim da linha e vê na sua missão a sua última hipótese de redenção. Mas como em todos os filmes de Peckinpah a redenção é feita de sangue. Trata-se de um filme desequilibrado e sem foco narrativo, pois sente-se que o realizador se marimbou para o guião e se deliciou a criar sequências chauvinistas, chocantes, sexistas e profanas. Mas nem tudo é violência nos filmes de Peckinpah e também aqui o seu lirismo melancólico está bem presente na sequência do piquenique. Essa cena é uma das muitas da carreira de um realizador injustamente acusado de falta de sensibilidade. Com uma interessante montagem e um trabalho comovente de Warren Oates, Bring Me The Head of Alfredo Garcia, é um filme marcante mas menor, na carreira de um dos mais influentes enfants-terribles da história da 7ª arte.


segunda-feira, março 29, 2010

Fear and Loathing in Las Vegas (1998)


de Terry Gilliam



FILMES DA MINHA VIDA - XVI

"No point in mentioning these bats, I thought. Poor bastard will see them soon enough. "

Terry Gilliam o visionário autor de obras marcantes, como Brazil ou 12 Monkeys, assina com Fear And Loathing in Las Vegas, o seu filme mais selvagem, alucinante e excessivo. Raol Duke e Dr. Gonzo partem para Las Vegas em busca do sonho americano, com uma mala cheia de todo o tipo de drogas e uma pré-disposição natural para arranjar todo o tipo de situações perigosas e caóticas. Adaptação fiel do mítico livro de Hunter S. Thompson, Fear and Loathing possui um espírito anárquico e psicadélico, onde o excesso dos personagens é acompanhado pela câmara delirante do seu realizador. As grandes angulares de Gilliam, as cores saturadas e surreiais e o ritmo diabólico transmitem toda a loucura e perturbação dos seus personagens assim como do pesadelo por detrás da hipocrisia do sonho americano dos anos 70. A brilhante e hilariante escrita de Thompson casa na perfeição com a câmara de Gilliam, numa adaptação cinematográfica... genial!

Com várias sequências geniais, destaco a entrada de Raol num bar cheio de répteis gigantes, o mergulho de dr. Gonzo numa banheira putrefacta, ou todo o segmento no circo Bazooco. E depois temos aquela que será com toda a justiça uma das melhores duplas interpretativas dos anos 90: Johnny Depp e Benicio Del Toro! Se Del Toro é impressionante e assustador, será exagero dizer que Depp compõe o melhor papel da sua carreira? Não é exagero. Depp supera-se e transfigura-se num papel recheado de maneirismos, tiques e inflexões de voz que entra no lote das grandes representações da história do cinema. Bravo Terry Gilliam que teve a coragem e audácia de levar este projecto para a frente e que assina um dos seus filmes mais provocadores e excessivos. Um filme que entraria facilmente numa lista dos grande filmes malditos da história da 7ª arte.

terça-feira, março 16, 2010

Marnie (1964)


de Alfred Hitchcock


Obra algo polémica e injustamente ignorada na carreira de Hitchcock, Marnie é um excelente complemento a um dos seus filmes maiores, o inesquécivel Vertigo. Repescando a sua heróina loura de The Birds (Tippi Hedren) e tendo Sean Connery como substituto de James Stweart, Hitchcock assina mais um retrato sobre os seus temas recorrentes: a obsessão sexual, a culpa, o amor, identidades falsas, mentiras, traumas e fixações maternais. Esta história de uma atraente ladra, que é aprisionada por uma das suas “vítimas” num jogo de psicanálise e obsessão, é uma reveladora incursão ao lado mais pessoal do mestre do suspense. Marnie é complexo, pois funciona como thriller, história de amor e drama psico-analítico. E é essa amálgama de géneros contraditórios, que lhe dão um sabor estranho e invulgar. Hitchcock parece mais interessado na dinâmica da relação quase sado-masoquista do seu casal de protagonistas e menos no mistério que serve de motor à história. Os resultados dessa abordagem, apesar de desequilibrados, são bastante satisfatórios, pois a fita funciona em diversos níveis permitindo diversas leituras. Connery nunca foi tão ambíguo quanto aqui. E Hedren brilha num papel torturado e difícil apenas ao alcance de uma grande actriz. Marnie possuí ainda uma das mais belas bandas sonoras do mestre Bernard Herrman e este filme assinalou a sua ultima colaboração com o mestre do suspense. Uma obra a ver por todos os aficionados do grande Hitch.

segunda-feira, março 15, 2010

A Bela e o Paparazzo (2010)


de António-Pedro Vasconcelos

António-Pedro Vasconcelos regressa com mais uma das suas histórias assumidamente comerciais e com o objectivo único, de chamar espectadores às nossas salas. É um gesto, que apesar do seu mérito, falha no momento crucial deste tipo de projectos. Ou seja, a Bella e o Paparazzo é um filme que se vê com agrado, tem bons diálogos, um ritmo escorreito e é completamente…vazio! A culpa é da história anémica, do desenlace previsível e das soluções fáceis. O filme tem uma boa surpresa chamada Soraia Chaves, que finalmente tem um papel que lhe permite exibir, mais que as suas generosas curvas, um talento dramático até aqui escondido. Os restantes actores vão bem, apesar do excelente Marco Dalmeida, não parecer, nem adequado, nem à vontade neste tipo de papéis românticos. Destacam-se ainda as presenças de Ivo Canelas, Nicolau Breyner e Nuno Markl, que rouba todas as cenas onde entra e tem direito às melhores deixas. APV nunca pretendeu assinar obras herméticas, como Oliveira e César-Monteiro, mas continua a falhar a ponte. A ponte onde o olhar artístico de um cineasta português, consiga ligar-se ao público que consegue levar à sala, oferendo-lhe um filme de conteúdo, compreensível, original e português. O público continua à espera.

segunda-feira, março 08, 2010

Mission Impossible III (2006)

de J.J. Abrams



Com um ritmo frenético a espaços, mas vazio, quer no contéudo quer na forma gasta, este Mission Impossible marca a estreia de J.J. Abraams no mundo do cinema, depois do estrondoso sucesso do seu Lost. Tom Cruise repete o papel do agente secreto Ethan Hunt, acompanho por um elenco luxuoso, onde além de um vilão sub-aproveitado, encarnado por um surpreendente Phillip Seymor Hoffman, se incluem nomes como os de Billy Cudrup, Ving Rhames, Jonathan Ryes Myers e Laurence Fishburne. O problema maior deste filme, parte do guião prevísivel e desinspirado, sendo a película salva a espaços pelo talento de Abrams, especialmente na direcção das cenas de acção. E nesse capítulo, uma nota de mérito para a sequência de resgate onde Ethan luta contra aviões, helícopteros e rockets. Mas MI-III tem clara fraquezas. Em particular a resolução arranjada para solucionar aquele brilhante início. Se a abertura do filme era plena de tensão, violência e desespero, a sua resolução, é cheia de clichés, twists previsíveis e concessões comerciais. No seu geral bem confeccionado, trata-se de um filme que apesar de ter os ingredientes certos, deixa a um sabor a muito pouco e candidato ao filme mais fraco deste franchising.

terça-feira, março 02, 2010

Shutter Island (2010)

de Martin Scorsese



O que Martin Scorsese consegue fazer com o seu último filme, é mais uma prova da sua enorme mestria (e cinéfilia) cinematográfica. Pegando num guião engenhoso, mas com uma primeira parte banal, Scorsese assina com Shutter Island, um dos seus filmes mais labirínticos e perturbadores. Esta história de uma dupla de detectives que buscam um paciente mental desaparecido de um asilo de loucos, poderia descambar para um daqueles corriqueiros thrillers, onde o mistério e os clichés abundam. Nas mãos do mestre, esta matéria prima é elevada e dirigida para as suas temáticas predilectas. E o que é admirável, é vêr todos os temas da sua carreira lá bem vincados e complementando a narrativa de Shutter Island. A paranóia de Raging Bull e Goodfellas, a loucura de Taxi Driver e The Aviator ou (surpreendentemente) a tragédia sacrificial de Last Temptation Of Christ. Tal como todos os (anti) heróis scorsesianos, o Teddy Daniels assombrosamente encarnado por Di Caprio, é um personagem torturado e assombrado, que deverá percorrer um calvário até a verdade sobre si mesmo sêr-lhe revelada. E sem querer estragar o final, Shutter Island brilha intensamente quando abraça os caminhos do filme de personagem, e menos durante aquela primeira hora onde o sabôr a deja vu não nos larga. Seja como fôr, temos aqui um dos filmes do ano, que infelizmente não estreou a tempo para figurar nos Oscars que aí vêm.

domingo, novembro 15, 2009

Comandante (2003)

de Oliver Stone


Fidel Castro e Oliver Stone só podia resultar em controvérsia. Nem é tanto o caso do contéudo, pois a abordagem de Stone apesar de muito informal é respeitosa para com o líder cubano. A controvérsia, deu-se quando este excelente retrato foi censurado nos Estados Unidos, terra das liberdades e das hipocrisias. A HBO sofreu pressões enormes, e acabou para relegar este documentário directamente para dvd, pois este não é um acto de denúncia a um ditador, mas sim o retrato de vida de um revolucionário, contado na 1ª pessoa. No decurso de 3 dias em Cuba, Stone e a sua pequena equipa de filmagem registaram os pensamentos de Fidel acerca da Revolução Cubana, da sua família e origens, de Che Guevarra, da ameaça e embargo americano, de cinema e das suas...mulheres. O filme tem momentos hilariantes (o jogging de Fidel no seu escritório ou a busca que Stone faz ao seu carro) e reveladores (a visão que Fidel tem da política conduzida por George Bush e a euforia com que o povo cubano o saúda sempre que o vê na rua). Filmado num registo guerrilha, com câmaras mini-dv, sustentado numa montagem não linear diabólica e com um protagonista polémico e fascinante, Oliver Stone tem em Comandante um dos pontos altos da sua carreira, assinando um importante documento histórico, sobre uma das grandes figuras do século XX.

Good Night, and Good Luck (2005)

de George Clooney

Nomeado para 6 oscars no ano de 2006, este filme é mais um gesto corajoso e político na carreira do seu realizador, a estrela George Clooney(um pouco à imagem de Warren Beatty com o seu Reds). Apoiado por um elenco de luxo onde alem do brilhante David Straithairn, se destacam Robert Downey Jr, Jeff Daniels, Ray Wise e Frank Langella. A fotografia evocativa e a realização claustrofóbica criam um ambiente de pressão e tensão, onde a parada vai subindo, conforme a batalha entre a Edward Morrow e o senador McCarthy aumenta de intensidade. Mas apesar dos méritos e esforços dos talentos envolvidos, Good Night And Good Luck deixa um sabor a pouco. Além dos descabidos interlúdios musicais, que travam o ritmo da acção, o filme sofre de uma grave falha: falta-lhe uma conclusão dramaticamente eficaz (e o final ambíguo também não ajuda nesse ponto). Seja como fôr trata-se de uma película inteligente e corajosa a espaços, que pegando numa situação de há 50 anos atrás, faz uma reflexão pertinente acerca do poder e dever da imprensa na sociedade actual. Apesar disso muito distante do fulgor ou qualidade artística de um certo filme de seu nome, The Insider.

quinta-feira, outubro 08, 2009

The Hurt Locker (2009)

de Kathryn Bigellow

E quando eu menos esperava... BOOM! Finalmente um estrondo de filme! Até agora a guerra do Iraque tinha ficado palidamente retratada pela 7ª arte. Filmes como The 3 Kings, Redacted ou In The Valley of Ellah, constituiram nobres, mas pálidos esforços. Teve de ser uma mulher a perceber a sede de guerra dos homens. A mulher é nem mais nem menos que a ex Mrs. James Cameron, de seu nome Kathryn Bigellow. Arrisco dizer que Bigellow é a melhor realizadora a trabalhar nos EUA. A sua carreira indica uma coragem temática e formal que está ao alcance de poucos cineastas. E em The Hurth Locker, Bigellow chega ao coração da guerra. Essa coração é feito de perigo, camaradagem, medo, paranoia, rituais, violencia, morte e exitação. E é no personagem do sargento interpretado por Jeremy Renner (atenção a este senhor), que a realizadora revela a sua peculiar e astuta abordagem à loucura da guerra. Renner assina um personagem que por detrás de um heroísmo kamikaze, esconde um lado ambíguo e traumatizado, mas que acaba por ceder à adrenalina de desafiar a morte. E depois temos aqueles 5 minutos finais, que sem dizerem nada, dizem tudo o que ha para dizer, resumindo de forma brilhante e inesperada, toda a temática de The Hurt Locker. Para mim um dos grandes filmes do ano.

quinta-feira, agosto 13, 2009

Public Enemies (2009)


de Michael Mann

Pelo trailer parecia que Michael Mann iria levar-nos de regresso às temáticas e à mestria cinematográfica da sua obra-prima, o incontornável Heat. Puro engano. Em comum com essa película temos a história de um brilhante ladrão de bancos, que é perseguido implacavelmente por um obcecado agente da lei. E apesar dos parelelismos com Heat, Public Enemies, não se aproxima sequer da poesia ou do furor desse filme. Depp e Bale estão a léguas de distância de Pacino e De Niro. E perdoem-me os puristas, mas aqui, acho que Mann levou a secura longe demais. Na sua inecessante busca pelo realismo e autenticidade, Mann esqueceu-se de fugir aos lugares comuns que por vezes estão presentes na realidade. E isso num filme de género como é este, pode ser um erro. O que procuramos quando pagamos um bilhete e ficamos durante 2h30m numa sala de cinema, é a surpresa, o sublime ou a emoção. E a emoção, aqui só está presente a espaços. Destaque para cenas muito bem conseguidas como a “tortura” de Marianne Coultiard, ou a reação de Bale à desumanização da sua polícia. Mas fora isso, o que temos é Mann a caminhar território familiar, com tiroteios, romance e violência, mas que inesperadamente, em Public Enemies soa a deja vu.

Alem de Bale e Coultiard, Johnny Depp está seguro, mas com um personagem demasiado enigmático. Voltando a Heat, o anti-heroi que era o Neil McCaulley de De Niro tambem tinha motivos obscuros e uma presença fria. Mas aí De Niro e Mann conseguiram fazer-nos sentir (quase subliminarmente) toda a emoção e humanidade reprimida daquele personagem. Em Public Enemies, nunca há essa emoção. Mann está mais fascinado com a ideia de celebridade de um criminoso, do que propriamente com os seus conflitos interiores ou aspirações. E se no campo técnico o filme é irrepreensivel (aqui Mann não sabe falhar), a fotografia apesar de boa, nunca chega a níveis brilhantes. Destaque para o imenso cast (Stephern Dorff, Billy Cudrup, Giovanni Ribisi, James Russo) que não tem material para criar personagens de carne e osso e se limita a dar as suas deixas. As três estrelas são para a ousadia digital da fotografia, a reconstituição histórica, as interpretações seguras e para alguns bons momentos de Mann. Mas no conjunto da sua obra, não hesito em afirmar: para mim este é um filme menor de um grande cineasta.

domingo, julho 05, 2009

Tropic Thunder (2008)


de Ben Stiller


Sátira ácida aos clichés dos filmes de guerra, assim como caricatura aos caprichos das estrelas de Hollywood, Tropic Thunder é uma das grandes comédias de 2008. Ben Stiller nos comandos da realização, assina uma obra delirante e excessiva, onde um grupo de actores se vê perdido em plena selva tailandesa enfrentando as situações com que se deparam, julgando fazerem parte do filme que supostamente estariam a rodar. Do realizador lunático, à estrela do "método", do heroi de acção imbecil, à vedeta de comédias flatulentas, do produtor tirânico e violento ao agente obcecado com os caprichos da sua estrela, toda a Hollywood é ridicularizada. O casting é a todos os niveis, brilhante e hilariante. Jack Black, Robert Downey Jr, Ben Stiller, Nick Nolte, Matthew McConaughey e Tom Cruise, assinam personagens desarmantes e caricaturais que expoem ao ridiculo, todas os tiques e cliches dos bastidores do cinema blockbuster. Por vezes o realizador força o tom em algumas cenas (alguma violencia excessiva que parece deslocada), mas as reações e diálogos dos seus personagens, são tão absurdos e dementes que qualquer erro de percurso é rapidamente esquecido. Em suma não é uma obra-prima, mas Tropic Thunder é a garantia de muita gargalhada e boa disposição. E atenção ao genérico final: Tom Cruise como nunca o imaginaram...

quarta-feira, julho 01, 2009

High Fidelity (2000)

de Stephen Frears



Filmes da Minha Vida - XV

Mais que uma simples comédia romântica (que tambem o é) High Fidelity é um brilhante e hilariante estudo à psique masculina, aos seus comportamentos, inadequações e obcessões relativamente ao sexo oposto. Não era fácil adaptar um livro tão único como aquele que Nick Hornby escreveu. Mas High Fidelity é daqueles rarissimos casos, em que o filme é tão bom quanto o livro. Isso deve-se ao magnífico trio de ases: Stephen Frears, John Cusack e Jack Black. Se Frears consegue respeitar o genial e irreverente espirito do livro, assim como incutir soluções visuais (os delirios de Rob) e narrativas (as confissões para a camara) inspiradas e inesperadas, John Cusack é a incarnação perfeita do anti-heroi romântico obcecado por pop-rock e relações falhadas. O Rob de Cusack é um poço de contradições: chauvinista, vulnerável, sensivel e egoista. Ou seja um grande personagem. Divertido, inesperado, comovente e sincero High fidelity é daqueles filmes que me são profundamente pessoais e que devo ja ter visto umas 10 vezes (o livro vai na 5ª releitura). Tal como uma boa canção, é um filme a que se volta com um prazer constantemente renovado.

segunda-feira, junho 15, 2009

White Hunter Black Heart (1990)

de Clint Eastwood


Este esquecido mas belíssimo filme de 1990, assinalou o terceiro passo de Clint Eastwood em se afastar de um cinema mais comercial, para poder abordar obras mais pessoais e por consequencia com um maior fulgor artístico. Antes tinha havido essa obra prima tão injustamente ignorada de seu nome Honkytonk Man (1982) e o galardoado Bird (1988) E diga-se desde já, que White Hunter Black Heart, figura sem problemas na lista de filmes maiores deste enorme autor americano. Esta história sobre um realizador de cinema (inspirado em John Huston) que está mais interessado em “cometer o pecado” de matar um elefante, em detrimento de iniciar a rodagem do seu filme, está recheada de momentos que apenas Clint Eastwood consegue nos oferecer. Sejam as magníficas e hilariantes sequências cómicas (a cena com a simpatizante nazi, ou a sessão de pugilismo com o gerente do hotel), ou então com um tom mais negro e soturno, que viria a marcar a sua obra posterior e que daria início à sua consagração enquanto cineasta. Esse negrume e complexidade manifesta-se aqui num dos finais mais dolorosos e comoventes na obra de Eastwood. Essa sequência final é o culminar natural da odisseia (interior) de um personagem extremamente complexo e contraditório, que fecha esta película dando início ao seu filme (dentro do filme) com aquela palavra sussurrada e torturada e com o subtexto de uma tragédia que ficou para trás: a palavra acção.

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