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quarta-feira, maio 05, 2010

The Thin Red Line (1998)

de Terrence Malick



FILMES DA MINHA VIDA XVII

No cinema de guerra existe o pré The Thin Red Line e o após The Thin Red Line. E uma coisa é certa, nunca Hollywood fez um filme de guerra tão singular, idiossincrático e rico. Este é daquelas fitas que a cada visionamento melhora e melhora e melhora cada vez mais tal é a sua riqueza temática e cinematográfica. O responsável deste milagre é um senhor chamado Terrence Malick, o cineasta que em 20 anos de carreira assinou aqui o seu terceiro filme. E que filme! The Thin Red Line aborda os clássicos temas do género de guerra e segue um grupo de recrutas americanos que tentam tomar um monte ocupado pelo inimigo japonês na batalha de Guadalcanal. Esses soldados são interpretados por um elenco de estrelas como raramente se viu (e merecem especial destaque Nick Nolte, Elias Koteas e o estreante Jim Caviezel no pele do espiritual Witt). E se Mallick e o seu director de fotografia John Toll filmam as batalhas com um fulgor e visceralidade empolgantes, não é aí que reside o trunfo maior desta película.

O que Malick nos propõe é o mergulho nos pensamentos e na essência dos seus soldados, através das suas variadas vozes em off, transportando-nos ao seu mundo interior reflexivo, espiritual e emocional. Os seus personagens questionam o papel do homem na natureza, a essência violenta da guerra, a sua própria desumanização ou pura e simplesmente o sentido da vida. Teologia funde-se num cenário de morte, onde os vários planos da natureza e da vida selvagem de Guadalcanal sugerem o olhar de Deus perante a insanidade da sua criação…o Homem. Isto tudo acompanhado por uma montagem brilhante criando um ritmo hipnótico que prende o espectador desde o 1º segundo. Junte-se lhe o dom de Malick para a composição de imagens marcantes e a banda sonora sublime de Hans Zimmer (a sua melhor?), e temos um filme transcendental. Scorsese chamou-lhe o 2º melhor filme dos anos 90, para mim é o 1º melhor filme dos anos 90 e o melhor filme de guerra de sempre. Genial? Não é mais que isso. The Thin Red Line é celestial…

terça-feira, abril 13, 2010

La Carne (1991)

de Marco Ferreri

Uma das últimas obras do polémico Marco Ferreri, La Carne é, à semelhança de filmes como Chiao Maschio e La Grande Bouffe, a crónica da auto-destruição de um homem, causada pela sua relação com uma sensual mulher. E em La Carne, Ferreri vai longe nos seus temas recorrentes de solidão, não comunicação entre sexo(s) e angústia existencial masculina. O seu Paolo leva ao limite a obsessão pela possessão do sexo feminino e num final que tem tanto de surpreendente como de perturbador, Ferreri torna explícito o tema desta obra através de outro dos seus tópicos favoritos, a relação entre o sexo e a comida. Se a super-mulher pela qual o pobre Paolo se apaixona, é voluptuosa, carnal e sexual, ela é também inacessível e inatingível. Durante todo o filme há uma luta pela possessão desta deusa, e uma sequência num talho, avisa-nos que esta luta será até às últimas sequências. Tal como The Last Tango in Paris, também La Carne fala da angústia de meia-idade masculina, através de cenas tórridas, escandalosas e chocantes. A diferença entre o clássico de Bertolucci e esta obra, é que aqui temos o humor sarcástico e caustico de Ferreri, que limitado a uma casa e meia dúzia de actores, cria um microcosmos e uma metáfora, para todas as relações possessivas. La Carne funciona como um interessante e perspicaz tributo à superioridade feminina e uma feroz crítica à bestialidade masculina. Um filme insólito na obra de um realizador injustamente esquecido.

segunda-feira, março 29, 2010

Fear and Loathing in Las Vegas (1998)


de Terry Gilliam



FILMES DA MINHA VIDA - XVI

"No point in mentioning these bats, I thought. Poor bastard will see them soon enough. "

Terry Gilliam o visionário autor de obras marcantes, como Brazil ou 12 Monkeys, assina com Fear And Loathing in Las Vegas, o seu filme mais selvagem, alucinante e excessivo. Raol Duke e Dr. Gonzo partem para Las Vegas em busca do sonho americano, com uma mala cheia de todo o tipo de drogas e uma pré-disposição natural para arranjar todo o tipo de situações perigosas e caóticas. Adaptação fiel do mítico livro de Hunter S. Thompson, Fear and Loathing possui um espírito anárquico e psicadélico, onde o excesso dos personagens é acompanhado pela câmara delirante do seu realizador. As grandes angulares de Gilliam, as cores saturadas e surreiais e o ritmo diabólico transmitem toda a loucura e perturbação dos seus personagens assim como do pesadelo por detrás da hipocrisia do sonho americano dos anos 70. A brilhante e hilariante escrita de Thompson casa na perfeição com a câmara de Gilliam, numa adaptação cinematográfica... genial!

Com várias sequências geniais, destaco a entrada de Raol num bar cheio de répteis gigantes, o mergulho de dr. Gonzo numa banheira putrefacta, ou todo o segmento no circo Bazooco. E depois temos aquela que será com toda a justiça uma das melhores duplas interpretativas dos anos 90: Johnny Depp e Benicio Del Toro! Se Del Toro é impressionante e assustador, será exagero dizer que Depp compõe o melhor papel da sua carreira? Não é exagero. Depp supera-se e transfigura-se num papel recheado de maneirismos, tiques e inflexões de voz que entra no lote das grandes representações da história do cinema. Bravo Terry Gilliam que teve a coragem e audácia de levar este projecto para a frente e que assina um dos seus filmes mais provocadores e excessivos. Um filme que entraria facilmente numa lista dos grande filmes malditos da história da 7ª arte.

segunda-feira, junho 15, 2009

White Hunter Black Heart (1990)

de Clint Eastwood


Este esquecido mas belíssimo filme de 1990, assinalou o terceiro passo de Clint Eastwood em se afastar de um cinema mais comercial, para poder abordar obras mais pessoais e por consequencia com um maior fulgor artístico. Antes tinha havido essa obra prima tão injustamente ignorada de seu nome Honkytonk Man (1982) e o galardoado Bird (1988) E diga-se desde já, que White Hunter Black Heart, figura sem problemas na lista de filmes maiores deste enorme autor americano. Esta história sobre um realizador de cinema (inspirado em John Huston) que está mais interessado em “cometer o pecado” de matar um elefante, em detrimento de iniciar a rodagem do seu filme, está recheada de momentos que apenas Clint Eastwood consegue nos oferecer. Sejam as magníficas e hilariantes sequências cómicas (a cena com a simpatizante nazi, ou a sessão de pugilismo com o gerente do hotel), ou então com um tom mais negro e soturno, que viria a marcar a sua obra posterior e que daria início à sua consagração enquanto cineasta. Esse negrume e complexidade manifesta-se aqui num dos finais mais dolorosos e comoventes na obra de Eastwood. Essa sequência final é o culminar natural da odisseia (interior) de um personagem extremamente complexo e contraditório, que fecha esta película dando início ao seu filme (dentro do filme) com aquela palavra sussurrada e torturada e com o subtexto de uma tragédia que ficou para trás: a palavra acção.

sexta-feira, abril 17, 2009

Lolita (1997)

de Adrian Lyne


Se a adaptação de Stanley Kubrick, da polémica obra literária de Nabakov, causou celeuma e escandalo, o mesmo aconteceu com este belíssimo filme de Adrian Lyne. A história de um professor irremediavelmente apaixonado e obcecado por uma adolescente, foi demasiado para as consciencias puritanas das audiencias norte-americanas em plenos anos 90. Resultado: um fracasso nas bilheteiras (algo raro em Lyne, senhor de sucessos estrondosos, como 9 ½ Weeks, Fatal Atraction ou Indecent Proposal). As acusações da altura, foi de que estávamos na presença de um filme imoral, mas Lolita é precisamente o contrário. Senão como explicar a destruição final dos principais personagens. Seja Humbert e a falencia do seu amor, levando-o à loucura e ao homicidio. Seja Lolita tornando-se uma mulher banal e mundana, deixando morrer aquilo que a tornava especial. Lyne opta por um tom muito mais sóbrio, que a abordagem de Kubrick. Enquanto o filme de 62 apostava no humor negro e na sátira, esta nova adaptação, caminha em terrenos da obsessão, drama e tragédia. Alem do mais, creio que os contornos e complexidades, de uma relação condenada (e condenável) à partida, são muito melhor explorados nesta película. Para isso, contribuiu enormemente a personagem torturada e dividida de Jeremy Irons, num dos seus grandes papéis, assim como o seu objecto de desejo, uma Dominic Swain, que transmite toda a tentação, inocencia e manipulação de forma tórrida e por vezes comovente. De destacar tambem a presença de Frank Langella (Frost/Nixon) no papel do monstruoso pedófilo Quilty, que nas poucas cenas em que aparece, transmite uma aura maléfica e perturbante. Ao pé de Quilty, Humbert parece um inocente, tal o nível de perversão deste personagem.

Trata-se de um filme complexo e com várias camadas de leitura. Insjustamente confundido como uma obra exploratória, Lolita é no fundo um retrato da obsessão e de amor perdido. Arrisco mesmo dizer, que é tão bom ou melhor que a versão de Kubrick. E aquela música de Ennio Morricone…

"Light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo... Li... Ta"

quarta-feira, novembro 19, 2008

Husbands and Wives (1992)

de Woody Allen

Filmado e encenado como se de um documentário tratasse, Husbands and Wives é um dos mais amargos e sérios filmes da carreira do grande Woody Allen. Rodado em pleno auge do colapso matrimonial do realizador, esta obra possuiu uma energia frenética e um tom tão pessimista, que após o seu visionamento ficamos com uma sensação que na sociedade moderna já não há espaço para as relações amorosas tradicionais. O ponto de vista de Allen além de pessimista (um reflexo da sua própria crise pessoal na altura) é algo cruel e moral (sem sêr moralista), pois através dele, conseguimos vêr o quão frágeis e por vezes rídiculas, podem sêr as relações entre homem e mulher. E depois temos aquele naipe sublime de magníficos actores, como a habitual Mia Farrow, Judy Davis, Sidney Pollack, Julliete Lewis e Liam Neeson, todos num registo naturalista tão verdadeiro, que tornam o visionamento deste filme, uma experiencia absorvente, fascinante e algo diferente de tudo o que Woody tinha feito até então. Um retrato desencantado e inspiradíssimo que marcou um momento de viragem na carreira de um dos maiores realizadores norte-americanos.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A Perfect Murder (1998)

de Andrew Davis

Remake "não assumido", do classico Dial M for Murder de Hitchcock, este thriller tem o dom de agarrar o espectador desde o início para o não largar mais. A história gira em volta do um clássico triangulo amoroso, com um marido traído (Douglas) por uma esposa (Paltrow) que mantem um caso com um jovem artista (Mortenssen). O twist nesta história, está na forma como o marido irá acertar contas com o infiel casal, com resultados sangrentos, mas muito inesperados. O argumento de Patrick Smith Kelley está muito bem cozinhado, e joga com as expectativas do espectador demonstrando que a lição de Hitchcock foi muito bem estudada, ou seja: deixar o espectador, sempre um passo à frente dos personagens. Pena é que uma sonsa Gwineth Paltrow e um Viggo Mortensen canastrão(ao contrário de outros papéis), não estejam à altura do sinistro personagem de Michael Douglas, um vez que este rouba, sem grande esforço, todas as cenas onde entra. Quanto à realização, apesar de não sêr brilhante, Andrew Davis (The Fugitive), não compromete e tem um bom sentido narrativo, deixando a história e os seus actores tomarem as rédeas do filme. Um thriller com uma boa gestão dos mecanismos do suspense, e que garante duas horas coladas ao ecrã.

terça-feira, outubro 07, 2008

The Apostle (1997)

de Robert Duvall

Este projecto que demorou 15 anos para sêr realizado, foi apenas possivel graças à persistencia, do seu actôr-argumentista-produtor-realizador, o magnífico Robert Duvall. O seu tema sui generis, e a visão imparcial de Duvall, fogem a todos os standards de Hollywood, sendo compreensivel o porquê da dificuldade do financiamento do filme. The Apostle, conta a historia de um pregador evangelista (Duvall) que apesar de ser um ferveroso crente e um excelente pastôr, deixa que as suas (muitas) falhas humanas empurrem a sua mulher (Farrah Fawcett) para os braços de outro homem. A traição dela, leva o pastôr a cometer um crime passional, tendo de fugir de seguida e recomeçar uma nova vida (e uma nova Igreja), numa pequena localidade do Sul da América. Esta história de redenção, tem um tom mais proximo do cinema europeu, do que da narrativa clássica americana, uma vez que Duvall, nunca vira a cara a mostrar as muitas falhas do seu pastôr E.F, sempre de forma justa e sem julgamentos morais. A realização nunca cai em manequeismos e é de louvar a forma súbtil e por vezes tocante, como o actôr-realizador, consegue equilibrar e revelar todo um vasto leque de emoções contraditórias. E depois há aqueles sermões de antologia, em que Duvall brilha de uma forma tão intensa, frenética e irresistivel, que tornaram inevitável a sua justíssima nomeação para o Oscar de melhor actor. Destaque ainda para os tons tórridos da fotografia de Barry Markowitz e para a partitura do habitual colaborador de Michael Cimino, o prodigioso David Mansfield.
Um filme belo e algo esquecido.

domingo, setembro 21, 2008

Titanic (1997)

de James Cameron

Sim, tem um romance que fede a novela. Sim, Di Caprio está demasiado "verde" para o papel. E sim, não merece a carrada de Oscars que recebeu. Mas, este é o projecto da vida de James Cameron, e isso é dizer muito. Mas, Kate Winslet está soberba. Mas, o naufrágio é das coisas mais impressionantes alguma vez recriadas em cinema. Mas, mesmo com as suas falhas, Titanic consegue sêr um grande filme.

Essas falhas começam num claro desequilíbrio de tom, entre a primeira e a segunda parte. E se nessa primeira parte, Cameron pretendia mostrar-nos algum desenvolvimento dos personagens, o seu objectivo é algo falhado, pois elas não são mais que estereótipos básicos. No entanto James Cameron é muito bom, na sua atenção obsessiva aos detalhes da direcção artística, no prodígio técnico que é a recriação do Titanic, e no tom de desespero e morte, que consegue implantar na ultima hora e meia de filme. Tal como nos seus filmes anteriores, o tema é o final de um mundo, causado pela arrogância tecnológica do homem. Mas o que Titanic tem em relação aos Terminators, Aliens, ou o The Abyss, é um sopro trágico e claustrofóbico, que deixa o espectador aterrorizado e comovido, com o destino dos tripulantes do infame navio.

E depois temos Kate Winslet, belíssima, forte e tocante, conseguindo dar carne e alma, a uma personagem que no papel sofria de muitas “armadilhas melodramáticas”. A sua Rose, não destoa absolutamente nada, ao lado de outras heroínas do cinema de Cameron, tais como Sarah Connor e Ellen Ripley. Kate tem um dos papéis da sua vida. E se relativamente à parte tecnica, Titanic é um prodígio, artisticamente é um deleite para os sentidos. Seja na fotografia evocatória de Russel Carpenter, ou na montagem e nos morphings de Cameron e Conrad Buff, assim como na romântica e melancólica banda sonora, que o sempre prodigioso James Horner, compôs para o filme(muita da força emocional da fita, passa pela sua música).

Além do mais, há que valorizar o risco que cineasta correu com este filme, que na altura foi o mais caro da história. Muito tiveram que engolir as suas previsões de desgraça, ao constatar o sucesso incomprável deste belo espectáculo.Titanic é ainda hoje, o filme com mais box-office na história do cinema. E isso deve-se a um sonhador visionário, chamado James Cameron, que apesar de tudo, assinou um filme inesquécivel. Que volte em breve com o seu Avatar.

segunda-feira, junho 30, 2008

Filmes da Minha Vida - XI


O ínicio da ascensão de Eastwood ao reino dos autores. Bem, não é bem um ínicio, mas sim uma confirmação. Pois antes tinha havido o tão esquecido Honkytonk Man, que recordo como um dos seus filmes mais luminosos e ao mesmo tempo amargurados. Mas Unforgiven, merece todo o culto que tem à sua volta. Nunca o western foi tão desencantado, poético e seco. É simplesmente um dos retratos mais cruéis da história do cinema. Um caracter studie sem redenção. Aqui o arco do personagem é um arco fatalista, onde a morte é a única verdade na vida de William Munny. E depois Unforgiven está recheado de momentos antológicos. Como aquele diálogo existencialista (mas tão simples) junto a uma árvore. Ou aquela sequência do assassinato de um dos vaqueiros, onde assistimos à dificuldade inerente a tirar uma vida. Ou então, simplesmente aquele olhar do anjo da morte, em que William Munny se tornou, num dos mais terríficos showdowns de qualquer western do cinema. Cru, realista e muito profundo. Um dos filmes maiores de um grande,grande,cineasta.

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Filmes da Minha Vida - VII


"If you want me to keep my mouth shut, it's gonna cost you some dough. I figure a thousand bucks is reasonable, so I want two. "
Tom Reagen


Assinado em 1990 pelos irmãos Coen, este é daqueles filmes que quem viu não esquece. Apostados em homenagear um dos seus autores favoritos, Dashiel Hammet, os Coen, assinam este portentoso trabalho, recheado de referências cinéfilas a vários filmes de gangsters. Envolvido no meio de uma guerra de gangs, Tom Reagen (Gabriel Byrne no papel da sua vida) irá têr de escolher entre a lealdade ao seu patrão (um poderoso Albert Finney) ou à companhia da mulher que o ama (Marcia Gay Harden). Mas será que tudo é o que parece? Como diz a certa altura um dos personagens: “Up is Down. Black is White.”O tom é nilista e extremamente negro, e a violência explosiva não é para todos. Tem um enredo complexo e genial, uma fotografia deslumbrante, uma realização de mestre e interpretações inesquéciveis. E depois para além disso tudo, há aquela música fantasmagórica de Carter Burwell, plena de nostalgia e melancolia. Perfeita neste mundo único que é Millers Crossing. Fracasso de bilheteira na altura da sua estreia, Millers Crossing conquistou o estatuto de filme de culto e destaca-se como um filme fundamental no universo dos Coen, sendo o seu trabalho mais bem conseguido até hoje. Para mim, uma obra-prima apaixonante.

domingo, janeiro 06, 2008

Filmes da Minha Vida - VI

A pérola na filmografia de Spielberg. A par do recente Munique, é o seu filme mais realista, pertinente e pessoal. Aquando da sua estreia vi-o pelo menos 3 vezes em sala. As interpretações são únicas: o magnetismo assombroso de Liam Neeson e a malovolência que Ralph Fiennes emana. A fotografia é um achado: a primeira colaboração entre o cineasta e o brilhante Janus Kaminski, transmite toda a melancolia e tristeza que a história conta. A montagem de Michael Kahan é original e francamente virtuosa, conseguindo com o simples poder de um corte entre dois planos, falar mais que mil palavras. A banda sonora é imortal: aqueles acordes de Itzhak Perlman e John Williams, arrepiam sempre que os oiço. E por fim a realização, o verdadeiro ás de trunfo desta magnífica obra de arte, que é do mais cinematográfico e inspirado que Spielberg alguma vez conseguiu, com inúmeros momentos transcendentes que levam o espectador numa viagem com tanto de horrível, como de sublime.

domingo, dezembro 09, 2007

Groundhog Day (1993)

de Harold Ramis

Imagine que acordava todos os dias à mesma hora, com a mesma música no rádio, no mesmo local e no mesmo dia do ano, vendo sempre as mesmas pessoas envolvidas exatamente nas mesmas situações dia após dia. A início a situação leva-o à incredulidade, depois ao desespero que o conduzem às tentativas de suicídio. Mais tarde à ocorre-lhe manipular os outros à sua volta, mas por fim acaba por descobrir sentimentos que desconhecia: a compaixão e finalmente, o amor.

A partir desta original permissa, Harold Ramis (o Egon dos Ghostbusters), assina uma das mais inventivas e brilhantes comédias dos anos 90. A sua realização discreta mas eficaz q.b., potencializa ao máximo e em igual medida, os elementos cómicos e dramáticos da inverosímil situação do protagonista. A mão de Ramis, nunca treme, contando a história de uma forma tão dinâmica e suave que o espectador é agarrado desde o primeiro segundo, nas história que se desenrola. A culpa é tambem repartida pelo magnífico guião, que de uma trama única, cria uma série de conflitos (interiores e exteriores) ora cómicos ora dramáticos ao personagem do magnífico Bill Murray.

Muito antes de Wes Anderson, ou Sofia Coppola, descobrirem a sua faceta mais dramática, foi neste Groundhog Day, que Murray começou a revelar o seu lado mais melancólico. É extramente credível a angústia existencial que o seu papel transmite sem recurso a tiques ou excessos, mas sim de uma forma subtil e talentosa.

Em suma, um dos filmes mais originais que sairam de Hollywood, e que com o tempo acabou por ganhar um merecido estatuto de filme de culto.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Filmes da Minha Vida - II


Uma verdadeira proeza este filme mágico. Realizado, produzido e interpretado por Kevin Costner, que teve aqui o pico da sua carreira. Esta história de um homem que foi à procura da fronteira e acabou por se descobrir a si próprio, é um dos mais líricos e mais belos westerns da história. A evolução de John Dunbar até se converter em Danças com Lobos, é uma viagem fascinante. Belíssimas imagens, sequências inesquéciveis (aquela caça ao bufallo ou o inesperado e dramático final), representações fortes e especialmente uma banda sonora recheada de melodias sublimes, assinada pelo mestre John Barry, que para mim é capaz de ser uma das mais perfeitas conjugações entre música e imagem a que alguma vez assisti. Um filme intemporal e de forte pendor humanista! Magnífico!

domingo, outubro 21, 2007

Crimson Tide (1995)

de Tony Scott


No início dos anos 90, o regime soviético acaba por cair nas mãos de um louco de seu nome Radchenko (inspirado em Zironofsky), que ameaça o mundo com o seu armamento nuclear. O submarino americano Alabama, comandado pelo veterano Ramsey (Gene Hackman) , parte em direcção à Rússia, numa missão preventiva. O novo imediato Hunter ( Denzel Washington), acaba por entrar em rota de colisão com Ramsey, devido a uma mensagem muito dúbia, que poderá levar o mundo a uma guerra nuclear.

Com produção de Jerry Bruckheimer e realizado com mão segura por Tony Scott , Crimson Tide é dos melhores filmes do britânico até à data. A gestão da tensão é feita de forma eficiente e em crescendo. Os habituais exageros estílisticos de Scott, estão quase ausentes, reforçando assim a importância dos personagens e aumentando a claustrofobia do espaço do submarino.

Servido por um argumento, muito bem trabalhado, que consegue dar-nos a entender perfeitamente as motivações tanto de Ramsey, como de Hunter, sendo perfeitamente plausível a escalada de conflito entre os dois homens. O argumentista Michael Schiffer, nunca recorre a saídas fáceis, e opta pelo desenvolvimento dos personagens, em detrimento da pirotecnia de artifícios, a que este tipo de história poderia levar. Como nota curisosa, é de salientar que Tarantino trabalhou no guião a convite de Scott, para reforçar alguns diálogos, como facilmente se percebe na cena do Silver Surfer.

Apesar do leque de actores fortíssimo, onde se incluem Jason Robards, George Dzundza, Viggo Mortenssen ou James Gandolfini (muito antes dos Sopranos) , Crimson Tide, aposta tudo e bem, nos seus principais: uns enormes Gene Hackman e Denzel Washington, que dão uma verdadeira lição da arte de bem representar, apesar dos seus estilos diferentes. São impressionantes as cenas de confronto entre os dois gigantes, tal é a intensidade, a pura força e carisma que ambos emanam, sendo quanto a mim as grandes mais valias deste belíssimo filme.

quinta-feira, outubro 18, 2007

Trainspotting (1996)

de Danny Boyle

Baseado no livro escândalo de Irvine Welsh, Trainspotting é um retrato de uma juventude escocesa, perdida no crime, na droga, na doença e na violência, mas com um toque de humor negro Q.B que faz toda a diferença para a necessária identificação com os personagens. Filme culto dos anos 90, Trainspotting é a prova da vitalidade do cinema europeu dessa altura, assim como a afirmação do talento de Danny Boyle (que até aí tinha apenas assinado o excelente Shallow Grave).

Recheado de uma galeria de figurões extremamente coloridos e divertidos. Eles são, o protagonista Mark Renton (Ewan Mcgregor), com a sua filosofia de escolher cavalo em vez de escolher a vida. Simon “Sick Boy” (Johnny Lee Miller) o grande teórico de Sean Connery e engatão incorrigível. Spud (Ewen Bremmer, o drogado de bom coração com uma grande apetência para defecar em camas estranhas e para se encher de speeds nas entrevistas de emprego. E finalmente o psicótico e paranóico “Franco” Begbie (Robert Carlyle), perigoso, irrascível e sempre na vertigem da violência. Todos os actores, estão à altura dos papéis, conseguindo dar o toque humano essencial, na composição destas bizarras personagens. Outro ponto fortíssimo, é a adaptação que o argumentista John Hodge fez do livro de Welsh. Hodge combina personagens e situações do livro, mantendo-se sempre fiel ao espírito da obra original. É de salientar que o livro tinha uma estrutura não linear algo complexa, que Hodge escolheu contar de forma mais tradicional e eficaz.

E para final o melhor: a virtuosa realização de Danny Boyle. O realizador parece ter sido possuído pelo mesmo espírito febril dos seus personagens. Personagens esses, que nunca em momento algum são julgados pela câmara de Boyle. A sua realização nunca recorre a saídas fáceis e prefere manter-se do lado dos seus heróis(?) até às ultimas consequências (incluíndo um delírio numa cena de antologia na pior casa de banho da Escócia). A encenação arrojada e destemida, o uso de grandes angulares que distorcem e alienam os personagens, uma montagem frenética e inovadora, a manipulação de sons, conjugada com a pujante banda sonora (Underworld, Iggy Pop, Lou Reed), revelam aqui o melhor momento da carreira de Danny Boyle.

Um dos melhores filmes dos anos 90, e obrigatório para (quase) todos.

quinta-feira, julho 19, 2007

Ruptura Explosiva (1991)

de Kathryn Bigellow

Datado de 1991 e com assinatura de Kathryn Bigellow, posso desde já dizer que para mim, Ruptura explosiva é um dos melhores filmes de acção dos anos 90.

A premissa é muito simples, Johnny Hutah (Keanu reeves) é um agente do FBI que tem como missão apanhar um grupo de assaltantes conhecidos como os ex-presidentes. O problema é que os ex-presidentes são na realidade surfistas e Johnny após infiltrar-se no seu fechado grupo, irá ter de escolher entre a lei ou um estilo de vida que na realidade é o seu.

A catchline do filme é 100% adrenalina. Acreditem que é isso mesmo que Ruptura Explosiva dá ao espectador. Desde as belíssima cenas de surf, passando por uma perseguição verdadeiramente alucinante, uma cena de tiroteio explosiva (com a banda Red Hot Chilli Peper como traficantes de droga) ou uma impressionante sequência em queda livre, todo o filme tem um espírito radical e chega mesmo por vezes a desafiar as convenções do género em que se insere. Isso deve-se especialmente ao poderoso trabalho da realizadora Kathryn Bigellow (Near Dark, Estranhos Prazeres), que se revela o ás de trunfo desta produção, com uma encenação e movimentos de câmara virtuosos (como viria a ser a sua marca) uma forte direcção de actores e um sentido narrativo irrepreensível. Bigellow prova que há grandes realizadoras em Hollywood.

Uma palavra para os actores, que no geral vão todos muito bem, especialmente Patrick Swayze no papel do carismático e espiritual Bohdi. Keanu Reeves, não compromete e até tem os seus momentos, mas que infelizmente não são muitos. Isso nota-se ainda mais quando um senhor chamado Gary Busey (era o senhor Joshua no 1º Lethal Weapon, lembram-se? ) entra em cena e acaba por roubar o show a Keanu. A presença de Busey acaba por funcionar como um piscar de olhos a outro filme de surf, chamado The Big Wednesday e realizado pelo “desaparecido” John Millius.


Em suma Ruptura Explosiva é o Summer Movie perfeito de qualquer Verão (ou Inverno já agora), em que há uma clara aposta na acção, nos personagens e num certo tom lírico que perfuma o filme. Uma excelente alternativa para desenjoar dos robots que andam aí na moda.

domingo, junho 24, 2007

A Idade da Inocência (1993)

de Martin Scorsese


À terceira foi de vez. Finalmente atingiu-me em cheio esta obra maior de Martin Scorsese. Estreado em 1993, em pleno apogeu de Scorsese (Goodfellas e Cape Fear sairam quase em simultâneo), A Idade da Inocência é à primeira vista uma mudança de registo radical da obra do seu realizador. Foi exactamente essa mudança que me afastou deste filme, até agora. Porquê, essa mudança é apenas aparente, os temas estão todos lá, a culpa, a paixão, os códigos da sociedade, a atenção obcessiva a todos os rituais, e mais que esses elementos todos, a mágoa romantica dilacerante de um amor perdido que em alguns filmes de Scorsese funciona como subtexto (New York New York, Raging Bull, Life Lessons, Casino).

Mais que um filme sobre uma sociedade nova iorquina do sec XIX, parece-me óbvio que este é um dos filmes mais pessoais da carreira de Scorsese. Técnicamente é como qualquer Scorsese, irresistível e irrepreensivel. Os Push Ins, os Travellings, os blends. São a marca de um autor em máxima força e abordando cada cena com toda a sua paixão e arte.

Recheado de momentos inesquéciveis, A Idade de Inocência, mostra-nos um outro Scorsese, mais melancólico, ponderado, diria mesmo maduro, onde a violência, provem mais das aparências e das regras de uma sociedade implacavelmente conservadora, que destroi os sonhos daqueles que se procuram libertar-se dos seus códigos opressores.

Para finalizar é de destacar um final de partir o coração, em que conseguimos vislumbrar claramente a alma (ou o coração) do seu realizador.

Magnífico!

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