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terça-feira, julho 10, 2018

Cop (1988)

Maníaco, intenso, obsessivo, perturbado. Quem mais? James Woods claro. Em Cop, esses traços de personalidade (proibidos nestes tempos pussyficados) estão em efervescente ebulição, sendo guiados pela realização firme e seca, do seu habitual comparsa do crime e do kino, James B. Harris. Na fita, Woods fuma, trai, mata, tortura, fuma, pragueja, fode, é fodido, fuma outro e fode-se. Ah, e é o bom da fita. A trama do serial killer é o menos. O mais, é o fascinante deleite com que realizador e actor se entregam a um estudo de personagem de um autentico pulha, com mais em comum com o crime que com a lei. Dito isto: James Woods a presidente da galáxia e do universo. Mais que um actor, estamos perante uma força da natureza que passou ao lado de uma enorme carreira, precisamente devido ao tipo de papéis escolhidos (ou oferecidos): os perturbados, os obsessivos, os intensos, os maníacos. Aleluia por isso!

terça-feira, maio 04, 2010

Filme do caralho! (III)

Violento, selvagem, excessivo, cru, profano, delirante, cómico, crítico, violento, demente, genial, trágico, palavroso, misógeno, escandaloso, sangrento, brutal, violento, prodigioso, cruel, adulto, crítico, incorrecto, delirante, poderoso, violento. Ou seja, nos antípodas das paneleirices assépticas em CGI ou em 3D que se fazem actualmente. Como é que Hollywood permitiu um filme destes em plenos anos 80? Perguntem aos pais da criança: De Palma, Pacino e Stone...

segunda-feira, abril 20, 2009

Witness (1985)

de Peter Weir


Estrondoso sucesso comercial e artístico em 1985, Witness é um marco na carreira do seu realizador e do seu actor principal. Peter Weir assina o seu primeiro filme americano com resultados quase sublimes. A sensibilidade do cineasta australiano, torna este thriller em muito mais que isso. Apesar de ser um policial vibrante, Witness é acima de tudo uma delicada e inspirada história de um amor impossível, causado pelo contraste de dois mundos muito diferentes. Se o universo de John Book é violento e urbano, o de Rachel Lapp é solidário e anacronicamente idílico. É desse conflito de culturas, que nascem os melhores momentos deste filme nomeado para 8 oscars. Uma dessas nomeações foi precisamente para Harrison Ford ( a sua única até hoje ). O seu John Book é dos personagens mais complexos que o actor interpretou até hoje. Com uma subtileza até então desconhecida, Ford consegue transmitir força, vulnerabilidade, brutalidade e carência. Essas emoções demonstram o alcance interpretativo de Ford, provando que é muito mais que um heroi de aventuras e FC. Destaque tambem para a luminosa Kelly McGillis, para o pequeno Lucas Hass e para um cruel Danny Glover.Apesar da plot assentar em alguns clichés do policial (os polícias corruptos), os magníficos actores, a abordagem quase lírica de Peter Weir (que foca emoções, olhares e ambientes) fazem de Witness um dos grandes filmes da colheita de 85 e o melhor filme do seu realizador, lado a lado com The Truman Show.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Filmes da Minha Vida - XII

Passa por este épico policial uma onda de fúria, desespero, obsessão e tragédia, na figura de um Mickey Rourke num dos grandes papéis da sua vida. O seu torturado capitão Stanley White, é um dos personagens mais politicamente incorrectos de que há memória na história do cinema. Ele é racista, misógino e obcecado na sua cruzada contra a máfia chinesa. Graças a isso, White quase destrói todos os que estão à sua volta. Ele é claramente um personagem à margem, que leva a sua obsessão por justiça longe demais, com consequências trágicas e irreparáveis. Com a assinatura do oscarizado (e ostracizado) Michael Cimino, este filme é um dos grandes momentos do cinema dos anos 80. Com um argumento implacável escrito a meias com Oliver Stone, Cimino tentou com Year of The Dragon recuperar do desastre financeiro de Heavens Gate. Como curiosidade, Stone e Cimino chegaram a infiltrar-se nas tríades de Chinatown, para desta forma conferir autenticidade ao guião. Apesar dos resultados comerciais mais uma vez não terem sido famosos (e com acusações de racismo pelo meio) a mão de Cimino é magistral tanto na encenação da acção como no desenvolvimento dos personagens. Rourke e John Lone, degladiam-se de forma selvagem e sanguinária num choque de leis e de culturas. Nunca o cinema policial chegou tão alto como aqui. É um dos filmes essenciais na minha vida e isso deve-se ao trio Cimino, Stone e Rourke. Em suma, é uma obra-prima que carece de reavaliação crítica o quanto antes.

quinta-feira, setembro 11, 2008

Recordações da Casa Amarela (1989)

de João César Monteiro

Em 1989, Portugal foi surpreendido com a notícia do feito de um cineasta até então desconhecido. Esse cineasta tinha arrecadado o Leão de Prata do Festival de Veneza (feito inédito e irrepetível), com o seu filme, Recordações da Casa Amarela. Desde então, não mais o cinema português esqueceu João César Monteiro.

Primeira parte, das desventuras de João de Deus (Monteiro em auto-retrato?), foi e ainda é uma película de ruptura. Nunca até então se tinha visto algo parecido no cinema português (e mundial já agora). Um filme tão disposto a abraçar o sagrado e o profano, o sublime e o kitsch, Shubert e Quim Barreiros. Para além disso, é um filme ferozmente crítico. A forma como João César Monteiro se lança à pequenez e à hipocrisia dos brandos costumes à portuguesa, é iconoclasta e originalmente provocatória. O seu João de Deus, é o anti-establishment por excelência (não é por acaso que chega a fazer-se passar por militar, com o intuito de “marchar sobre São Bento”). Monteiro dispara em várias direcções, mas sempre com um humor irónico, blasfemo e por vezes desarmante, fazendo-nos render à sua personagem. E depois aqueles planos geniais, que mostram que nunca houve composições tão belas no cinema português. Isso, e uma utilização invulgar da mise-en-scéne, demonstram um realizador no topo da sua forma, cheio de conceitos e ideias nunca vistas.

Um grande filme e uma excelente forma de iniciar a descoberta da obra de um génio (louco?), que voltaria à carga com o senhor João de Deus, nos superiores A Comédia de Deus e As Bodas de Deus.

segunda-feira, setembro 08, 2008

Star Trek - The Wrath of Kahn (1982)

de Nicholas Meyer

Após o semi-flop que foi Star Trek – The Motion Picture, os executivos da Paramount viram-se com uma batata quente nas mãos. Por um lado, os resultados comerciais do 1º filme, deixaram muito a desejar. Por outro, todo uma legião de fãs (os trekies) exigiam um novo filme á altura da série. E numa jogada audaz e arriscada, afastaram Gene Rodenbery das rédeas da produção (que tinha sido um dos problemas na anterior película), entregando os comandos a Nicholas Meyer (realização) e Harve Bennet (produção), por metade do orçamento do 1º filme. O resultado não podia ser melhor. Star Trek – The Wrath of Kahn, é o mais amado e conseguido filme, de toda a saga.

Esse sucesso deve-se em grande parte, á mão segura e à abordagem insólita de Meyer e Bennet. Repescando o vilão de um dos episódios mais amados pelos trekies, fazem a ponte com todo um passado que estava para trás, deixando as pretenções metafísicas do 1º filme. E o que temos aqui é um belíssimo entretenimento, que tem tanto de deslumbre, assim como doses maciças de diversão e emoção.

Kirk (William Shatner na sua melhor performance) e Spock (Leonard Nimoy inimitável) nunca estiveram tão bem. Cada qual com um conflito interior muito credível, em particular Kirk, que tem de enfrentar a decadencia e algo que sempre se recusou a olhar de frente: a morte. E depois temos Kahn (Ricardo Montalblan), um vilão “biger than life” obsessivo na sua sede de vingança, com um gosto particular por citações de Moby Dick. Um pormenor que é tudo menos inocente, pois Kahn funciona como uma espécie de capitão Ahab intergalático. Aliás, todo o filme tem um sabor aos velhos clássicos de aventuras marítimas, muito bem fundidas com a vastidão do espaço. Factor que realça esse sabor, é a magnífica partitura de James Horner, que poderia facilmente ser a banda sonora de um Captain Blood ou um Sea Hawk.

O tom do filme, a edição vertiginosa, a história muitíssimo bem contada e a abordagem cinéfila de Nicholas Meyer, elevam este filme a patamares elevadíssimos. E depois temos aquele final semi-aberto, que deixa o espectador ansioso por novas aventuras. Um dos meus favoritos, que está para a saga Star Trek, como Empire Strikes Back para Star Wars: simplesmente o melhor da série.

terça-feira, agosto 12, 2008

The Bounty (1984)

de Roger Donaldson



Antes de mais esta 3ª versão cinematográfica, da revolta abordo do navio HMS Bounty, é provavelmente a mais realista de todas. Tanto a versão de 1935 como a 1962 são filmes do seu tempo, e optam por um simplismo de personagens, que nesta versão de 1984, é abordada de forma mais complexa e interessante. Tanto Charles Laughton, como Trevor Howard, criaram um Capt. Bligh, cruel, desumano e virtualmente psicótico. O Bligh de Anthony Hopkins, está nos antípodas dessa abordagem. O seu Bligh é leal, sofre, é corajoso, mas no fim é vítima das suas próprias falhas de carácter. É precisamente neste complexo retrato psicológico que reside muita da riqueza deste magnífico filme.

A história por demais conhecida e simples. Em 1787 a Bounty dirige-se às ilhas do Taiti numa longa e perigosa viagem. No regresso a tripulação liderada pelo imediato Roger Christian, amotina-se contra o progressivamente tirânico capitão William Bligh. Enquanto nas outras versões, Bligh e Christian, são inimigos quase de imediato, em The Bounty, descobrimos que há uma amizade que os une. Essa amizade irá progressivamente deteriorar-se com consequencias dramáticas. A causa é o paraíso selvagem e o amor que Christian descobre na Ilha. Bligh cada vez mais incapaz de liderar e controlar os seus homens, enlouquece aos poucos, revelando uma faceta sádica e brutal. Isto causa a revolta liderada por Christian. Bligh é então abondonado à deriva em mar alto. Por fim consegue regressar a Inglaterra, graças a uma grande persistência e pericia marítima. Christian e os seu homens acabam por se refugiar numas ilhas desconhecidas dos mapas.

A direcção de Roger Donaldson ( No Way Out e 13 Days) é eficaz e muito segura. Apesar dos cenários poderem fazer com que caísse na tentação do filme bilhete postal, Donaldson concentra-se nas suas personagens. Os seus dilemas e conflitos, são o cerne do filme. Mel Gibson aguenta muito bem a sua representação, apesar do enorme actor que é Hopkins, lhe roubar quase todas as cenas. O Christian de Gibson é contemplativo e sereno, mas com uma revolta interior latente, que acaba finalmente por explodir, no momento climático do motim. Quanto a Hopkins, que dizer desse Enorme actor, provalmente já na altura um dos melhores do mundo. O seu Bligh oscila entre a simpatia e a crueldade de forma muito humana e verosimil, num trabalho digno de Oscar. Nos secundários, temos um dos melhores casts de sempre, pois alem de Gibson e Hopkins, brilham e destacam-se Laurence Olivier, Edward Fox, Bernard Hill e muito especialmente Liam Neeson e Daniel Day-Lewis em registos que viriam a comprovar o seu enorme talento. Destaque ainda para a magnífica fotografia, a inspirada banda sonora de Vangelis e para os diálogos brilhantes de Robert Bolt (como curiosidade, Bolt era o guionista de eleição do mestre David Lean, que esteve para realizar este filme).

Um filme de aventuras esquecido a redescobrir, por todos aqueles que gostem de vêr enormes actores ao serviço de uma história bem contada.

sexta-feira, maio 02, 2008

Reds (1981)

de Warren Beatty



Reds é antes de mais, um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes, alguma vez feitos em Hollywood. A sua feitura apenas foi possível devido à persistência e ao star-power de uma das suas maiores estrelas, Warren Beatty de seu nome. O financiamento para a realização de um épico sobre um líder comunista, autor de um dos livros mais fieis aos acontecimentos da Revolução Russa e o único americano sepultado no Kremlin, revelou-se uma tarefa quase impossivel. Especialmente tendo em conta o fervor anti-comunista, que reinava na altura numa América em plena Guerra Fria. Mas a tenacidade de Beatty levou a melhor, conseguindo o apoio da Paramount, e assegurando um controlo criativo total, interpretando, realizando, escrevendo e produzindo o filme. Após dois anos de rodagem e montagem, o filme estreava finalmente em 81. Imediatamente afirmou-se como um grande sucesso nas bilheteiras, e um dos filmes mais nomeados na história dos Oscars (13 nomeações, sendo 4 para Beatty, que igualou assim Orson Welles). Ou seja Reds torna-se um triunfo artístico e comercial sem precedentes na carreira do seu autor.

Abordando as ilusões e desilusões inerentes às utopias, a história de amôr de John Reed (Beatty) pela ideologia comunista, assim como pela mulher da sua vida, Louise Bryant, é contada de forma original, complexa e muitíssimo eficaz. A narrativa gira em torno da relação entre Reed e Bryant, dois intelectuais radicais, que com uma relação no mínimo tumultuosa (com infedelidades de parte a parte), reencontram o amor no mais surpreendente dos cenários, em plena Revolução Russa. A partír daí, Reed e Bryant regressam ao Estados Unidos, tentando espalhar a mensagem aquilo que viram na Russia, na esperança de assim agitar, e eventualmente revolucionar a sociedade americana. Reed acaba mesmo por abandonar o jornalismo e converte-se num dos primeiros líderes do partido comunista americano. Mas essa conversão irá fazê-lo regressar à Russia, deixando Louise para trás.

Vários são os momentos em que Reed, procura equilibrar o colectivo com o pessoal. A sua ideologia e o afecto. Mas esse equilibrio revela-se impossivel num estado totalitário. E esse é uma das maiores virtudes desta obra apaixonante: apesar de Beatty sentir uma óbvia simpatia para com a utopia comunista, há uma altura que o seu protagonista é forçado a constatar que o sonho se tornou um pesadelo. Um exemplo marcante, é o discurso que Reed faz para uma plateia de radicais muçulmanos, onde vê as suas palavras traduzidas de “guerra de classes” para “guerra santa” criando assim uma histeria eufórica na sua audiencia. Mais tarde é lhe dito que o seu discurso foi alterado, por não ser propagandistico o suficiente. Além de actualissima, essa cena revela toda a manipulação que o indivíduo sonhadôr, pode sofrer num colectivo que se rege de forma totalitária. Ou seja Beatty dá uma no cravo e outra na ferradura. E muito bem! Nunca negando a complexidade e a veracidade do tema que aborda, perservando a integridade da obra. E que dizêr daquele reencontro final na estação, em que uma ansiosa Louise Bryant, que após regressar à Rússia clandestinamente, finalmente encontra um destroçado Reed, criando um dos momentos mais comoventes a que assisti num filme. Além do mais, a história de amôr entre os protagonistas é palpável e nunca é abordada de forma sentimental, o que só lhe dá mais força.

E depois Beatty, tem outro momento inspirado. Convocando para este épico intimista, aquelas deliciosas “testemunhas” idosas. Escritores, intelectuais, militares, que conheceram e privaram de perto, com os verdadeiros John Reed e Loise Bryant. As suas intervenções ao longo do filme, narrando as suas experiencias conjuntas, são de uma candura, verdade e humor, simplesmente desarmantes Esta técnica documental, reforça a autenticidade de Reds, e dá uma ressonância singular às imagens que vemos. E claro que falar de Reds, é falar daquele cast portentoso onde brilham a grande altura Maureen Stapelton (com um oscar mais que merecido), Jerry Kozinski, Gene Hackman e Jack Nicholson (num surpreendente underacting). E as imagens que Vitorio Storaro criou? Que dizer daquelas composições inesquéciveis, ou do tratamento cromático, que nos dá a sensação de vêr um filme a preto e branco? O seu oscar é também inteiramente justo.

Tudo neste filme se conjuga de forma perfeita. Arte, entretenimento, política, amor, História. Reds é a prova que Warren Beatty por detrás daquela fama de galã de Hollywood, é antes demais, um cineasta de um talento e coragem imensas. Um dos grandes grandes filmes da minha vida.

sexta-feira, março 07, 2008

Poesia Pictórica

Este post é apenas para exprimir a minha paixão desmedida, por este filme tão mal tratado.




E como brinde aqui vai uma das cenas mais belas do cinema de Cimino.

sábado, dezembro 22, 2007

quarta-feira, novembro 28, 2007

Filmes da Minha Vida - IV


Entretenimento? Sim. Escapista? Definitivamente! Ocasionalmente inverosímil? Sem dúvida. Mas afinal de contas não é isso que por vezes nos leva ao cinema? Exemplo máximo da qualidade que pode emergir do cinema-pipoca, este é daqueles filmes em que a mão e a originalidade do seus criadores (Spielberg e Lucas), levam o espectador numa montanha-russa de emoções, através de personagens bigger than life, em aventuras que sucedem num ritmo verdadeiramente halucinante. Além da virtuosa realização de Spielberg (recheada de citações cinéfilas), ou da magnífica representação de Harrisson Ford (no papel que o inscreve nas grandes figuras da história de cinema), ou ainda da inesquécivel banda sonora do maestro John Williams, Raiders of the Lost Ark, é um marco na história do cinema. Com tanto de comercial como de artístico, um filme brilhante e incontornável. Até para o mais sisudo dos cinéfilos.

domingo, novembro 18, 2007

War of The Roses (1989)

de Danny De Vito


Oliver (Michael Douglas) e Barbara Rose (Kathleen Turner), tinham tudo para ser felizes. Dinheiro, sucesso profissional, dois filhos que prometem seguir as pisadas e uma casa de sonho. Mas no dia em que Oliver tem um suposto ataque cardíaco, Barbara confessa-lhe que já não o ama e pede-lhe o divórcio, exigindo-lhe apenas ficar com a casa em troca. Oliver recusa e a guerra começa.

Mais que um Mr. E Mrs. Smith, aqui a guerra é total. Nesta comédia muito negra vale tudo: da destruição de mobília, à matança de animais de estimação, ou a rega de um peixe para jantar, com um condimento muito duvidoso. Os Rose são implacáveis, e na sua selvagem batalha, não há lugar para prisioneiros. Das situações de discussão do dia a dia, assistimos a uma escalada no conflito que rapidamente entra no reino do puro nonsense, mas nunca caindo no tom de cartoon. Aqui o nonsense é cruel e negro.

Danny De Vito, assina aqui um filme único e o seu melhor enquanto realizador. Esta comédia negra não faz concessões nem tratados de paz. A guerra vai até às ultimas consequências, como o magnífico final demonstra de forma cruel e violenta. E esse lado selvagem deve-se à inspirada realização de De Vitto (com muito de Hitchcokiano), ao divertidíssimo guião de Michael Leeson, à fantástica fotografia de Stephen Burum (colaborador habitual de De Palma) e last but not least, ao fantástico par de protagonistas. Michael Douglas e Kathleen Turner, que têm uma química única e fora de série.
Uma das comédias mais negras e mais divertidas de todos os tempos!

quarta-feira, novembro 14, 2007

Fatal Atraction (1987)

de Adrian Lyne


Datado do ja longínquo 1987, Fatal Atraction, foi o filme do ano na altura. Não só no box-office, mas também na polémica e no debate que abriu sobre as relações extra-conjugais. De certa forma esta intenso thriller, pode ser considerado uma alegoria sobre a Sida, uma vez que a aventura de uma noite de Michael Douglas, praticamente destroi-lhe a sua família. Mas aparte esse tendor simplista, esta obra é um marco no cinema dos anos 80, sendo dos poucos thrillers a conseguir uma nomeação para melhor filme nos Oscars de Hollyood.

Glenn Close e Michael Douglas, incendeiam o ecrã com uma quimica tórrida e cenas de sexo intensas e escaldantes (para a altura). Close vai particularmente bem, conseguindo alternar a loucura latente da sua personagem, com uma fragilidade tocante que vem ao de cima de forma particularmente subtil. Ela é, por mérito seu e do seu realizador, uma das grandes vilãs, da história do cinema, podendo ombrear sem problemas com outros monstros como Hannibal Lecter, ou John Doe. Douglas vai seguro e não compromete, no papel do homem comum que num momento de luxuria, se deixa arrastar para um pesadelo que não estava nos seus planos. Quanto a Anne Archer, no papel de esposa traída, também vai segura, emanando uma beleza, simples e desarmante, conjugada com uma força interior que será fulcral para o final da história.

Adrian Lyne, realizador de clássicos como 9 ½ Weeks, ou do muito substimado Jaccob’s Ladder, tem uma mão segura, e particularmente inspirada. Sem os excessos estílisticos que o caracterizam, Lynne, aposta claramente nos personagens e na história, em detrimento de um certo floreado visual de outros filmes, e isso só dá mais força a Fatal Atraction. Com uma camara fluída e certeira, Lynne cria vários momentos inesquéciveis com a ajuda dos seus colaboradores, sendo de destacar o seu montador, o genial Michael Kahn (braço direito inseparável de Spielberg).

Um thriller inteligente e provocador, com grandes interpretações e um realizador inspirado. Um clássico a redescobrir.

quinta-feira, setembro 13, 2007

La Messa è Finita (1985)

de Nanni Moretti

Don Giulio é um jovem padre que regressa à sua terra natal, após um período de exilio voluntário, numas das várias ilhas do mediterrâneo (um prenúncio das ilhas de Caro Diario). Nesse regresso é confrontado com várias situações, que vão desde o aborto que a sua irmã pretende fazer, ao abandono da família por parte do seu pai para ir viver com uma miuda 30 anos mais nova, ao isolamento e recusa de viver em sociedade a que um antigo companheiro lutador anti-fascista se resignou, a um antigo camarada que se tornou terrorista e passou das teorias aos actos, acabando preso durante 7 anos. Todas estas situações deixam Don Giulio desgostoso, indignado e à beira de um ataque de nervos.

Deixem-me dizer que parece-me que este é o filme mais semelhante ao magnífico O Quarto do Filho. Semelhante na (quase) ausência de humor, e no tom pessimista que atravessa o filme. Moretti compõe talvez o seu personagem mais complexo até á data. Don Giulio é um poço de contradições, neuroses, fixações, desejos, frustrações e indignações. A violência do seu carácter que vem muitas vezes à tona, alterna entre o perturbante e o patético, mas revela toneladas da revolta interior, que o genial Moretti compõe de forma sublime. Mas ao contrário de Bianca, a violência acaba por não ter consequencias trágicas, sendo nesse aspecto mais optimista. Este é para mim o papel da vida de Moretti, uma vez que mostra que além de Moretti-o-realizador, existe um Moretti-o-actor, que se revela um verdadeiro poço de subtileza e sensibilidade.

Um salto qualitativo em relação a Bianca, é o tratamento que é dado ao personagens secundários. Mais que instrumentos para revelar a natureza perturbada de Don Giulio, eles são o retrato de uma geração à deriva, que fracassou nos seus objectivos sonhadores e lutas inglórias, das quais apenas sobrou uma amargura, que os afasta da sociedade e em último caso da vida. Todos os actores secundário estão perfeitos.

No campo da realização o trabalho de Moretti é como sempre irrepreensível (grande prémio da realização em Berlim). Moretti além de uma impecável direcção de actores e um cuidado narrativo meticuloso, manipula com perfeição os elementos sonoros e musicais, que acabam por complementar o interior dos personagens. Sequência ilustradora disso, é o momento em que o padre aumenta o volume de um rádio até ao máximo, abafando por completo o diálogo da sua irmã, que o confrontava com a decadência familiar da sua família. O escapismo musical tão em evidência em Caro Diario, Abril e La Stanza del Figlio, é aqui aplicado de uma forma ainda mais sublime.

Mas La Messa è Finita não é apenas um filme sobre a decadência de valores morais e ideológicos. Acima de tudo é sobre a ausência de afectos e a solidão (tema recorrente em Moretti) que estão na génese do comportamento bizarro do jovem padre. Há várias cenas que demonstram isso, mas é destacar o final particularmente tocante, em que no meio de um casamento que um derrotado Giulio celebra, os convidados começam a dançar na igreja e que provocam finalmente um sorriso esperançoso, na sua face até aí sisuda. Um final luminoso num filme desencantado e que faz pensar e especialmente, sentir.

Mais uma obra-prima. Grazie Nanni!

segunda-feira, setembro 10, 2007

Bianca (1984)

de Nanni Moretti


“ Como é triste é morrer sem filhos”

Michele Apicella, o altar ego de vários filmes de Moretti nos anos 70 e 80, é obcessivo, paranóico, tem várias fixações, que vão das tortas Sacher, às mais variadas formas de calçado, e nós mesmo assim simpatizamos com ele. Por detrás de todas essas manias e comportamentos desviantes, está uma forte convicção moral e uma ingenuidade pura, de que Michele não abdica e que procura mesmo incutir nos seus amigos de infância, vizinhos ou na sua recem namorada, a Bianca do título.

Bianca distancia-se dos trabalhos mais recentes de Moretti. Aqui há mais raiva, desilusão e um final muito negro, onde o protagonista nos troca as voltas de forma surpreendente. Este Moretti, é um Moretti, pré-filhos e pré-casamento, que vê nos outros personagens aquilo que ele gostaria de ter e ser, mas que no fundo sabe que nunca irá conseguir.

As amizades, que Michelle cultivou durante toda a sua vida, encontram-se agora desprovidas de princípios, de valores ou mesmo de moral. Esse naufrágio moral de toda uma geração, a que pertencem Michelle e seus amigos e colegas, é aquilo que desperta a calma raiva que Moretti aplica no seu protagonista.

No final não há lugar para a esperança de uma vida normal, uma vida a dois e quem sabe filhos. A corrupção de valores, de toda uma geração que se rege pela banalidade, pela mentira e pelo superficial, acabam por condenar de vez Michelle, à solidão e à consequente ausência de afectos.

Uma pérola desencantada e belíssima. A descobrir urgentemente por todos os apreciadores deste grande senhor do cinema mundial.

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