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quinta-feira, janeiro 31, 2019

Tabu (2012)

Tabu tem duas partes bipolares. A primeira, assumidamente fadista e formal, com um como isto tudo é tão triste, lança um mistério, de somenos importância para tão longa duração. Mas depois... Depois vem a segunda e o desvendar do mistério. O flashback mais glorioso do cinema português. Zero diálogos e "apenas" a memória de um tempo ido. Memórias, impressões, correspondências, que ouvimos em catadupa e que são em si um exercício Malickiano, oscilando entre a ironia irreverente e o mais profundo desespero poético. Junte-se lhe a isso crocodilos espectadores, uma arrebatada banda sonora e as lágrimas da Teresa Madruga e da Ana Moreira e eis "O" filme português desta década.

quarta-feira, maio 05, 2010

The Thin Red Line (1998)

de Terrence Malick



FILMES DA MINHA VIDA XVII

No cinema de guerra existe o pré The Thin Red Line e o após The Thin Red Line. E uma coisa é certa, nunca Hollywood fez um filme de guerra tão singular, idiossincrático e rico. Este é daquelas fitas que a cada visionamento melhora e melhora e melhora cada vez mais tal é a sua riqueza temática e cinematográfica. O responsável deste milagre é um senhor chamado Terrence Malick, o cineasta que em 20 anos de carreira assinou aqui o seu terceiro filme. E que filme! The Thin Red Line aborda os clássicos temas do género de guerra e segue um grupo de recrutas americanos que tentam tomar um monte ocupado pelo inimigo japonês na batalha de Guadalcanal. Esses soldados são interpretados por um elenco de estrelas como raramente se viu (e merecem especial destaque Nick Nolte, Elias Koteas e o estreante Jim Caviezel no pele do espiritual Witt). E se Mallick e o seu director de fotografia John Toll filmam as batalhas com um fulgor e visceralidade empolgantes, não é aí que reside o trunfo maior desta película.

O que Malick nos propõe é o mergulho nos pensamentos e na essência dos seus soldados, através das suas variadas vozes em off, transportando-nos ao seu mundo interior reflexivo, espiritual e emocional. Os seus personagens questionam o papel do homem na natureza, a essência violenta da guerra, a sua própria desumanização ou pura e simplesmente o sentido da vida. Teologia funde-se num cenário de morte, onde os vários planos da natureza e da vida selvagem de Guadalcanal sugerem o olhar de Deus perante a insanidade da sua criação…o Homem. Isto tudo acompanhado por uma montagem brilhante criando um ritmo hipnótico que prende o espectador desde o 1º segundo. Junte-se lhe o dom de Malick para a composição de imagens marcantes e a banda sonora sublime de Hans Zimmer (a sua melhor?), e temos um filme transcendental. Scorsese chamou-lhe o 2º melhor filme dos anos 90, para mim é o 1º melhor filme dos anos 90 e o melhor filme de guerra de sempre. Genial? Não é mais que isso. The Thin Red Line é celestial…

segunda-feira, março 29, 2010

Fear and Loathing in Las Vegas (1998)


de Terry Gilliam



FILMES DA MINHA VIDA - XVI

"No point in mentioning these bats, I thought. Poor bastard will see them soon enough. "

Terry Gilliam o visionário autor de obras marcantes, como Brazil ou 12 Monkeys, assina com Fear And Loathing in Las Vegas, o seu filme mais selvagem, alucinante e excessivo. Raol Duke e Dr. Gonzo partem para Las Vegas em busca do sonho americano, com uma mala cheia de todo o tipo de drogas e uma pré-disposição natural para arranjar todo o tipo de situações perigosas e caóticas. Adaptação fiel do mítico livro de Hunter S. Thompson, Fear and Loathing possui um espírito anárquico e psicadélico, onde o excesso dos personagens é acompanhado pela câmara delirante do seu realizador. As grandes angulares de Gilliam, as cores saturadas e surreiais e o ritmo diabólico transmitem toda a loucura e perturbação dos seus personagens assim como do pesadelo por detrás da hipocrisia do sonho americano dos anos 70. A brilhante e hilariante escrita de Thompson casa na perfeição com a câmara de Gilliam, numa adaptação cinematográfica... genial!

Com várias sequências geniais, destaco a entrada de Raol num bar cheio de répteis gigantes, o mergulho de dr. Gonzo numa banheira putrefacta, ou todo o segmento no circo Bazooco. E depois temos aquela que será com toda a justiça uma das melhores duplas interpretativas dos anos 90: Johnny Depp e Benicio Del Toro! Se Del Toro é impressionante e assustador, será exagero dizer que Depp compõe o melhor papel da sua carreira? Não é exagero. Depp supera-se e transfigura-se num papel recheado de maneirismos, tiques e inflexões de voz que entra no lote das grandes representações da história do cinema. Bravo Terry Gilliam que teve a coragem e audácia de levar este projecto para a frente e que assina um dos seus filmes mais provocadores e excessivos. Um filme que entraria facilmente numa lista dos grande filmes malditos da história da 7ª arte.

quarta-feira, julho 01, 2009

High Fidelity (2000)

de Stephen Frears



Filmes da Minha Vida - XV

Mais que uma simples comédia romântica (que tambem o é) High Fidelity é um brilhante e hilariante estudo à psique masculina, aos seus comportamentos, inadequações e obcessões relativamente ao sexo oposto. Não era fácil adaptar um livro tão único como aquele que Nick Hornby escreveu. Mas High Fidelity é daqueles rarissimos casos, em que o filme é tão bom quanto o livro. Isso deve-se ao magnífico trio de ases: Stephen Frears, John Cusack e Jack Black. Se Frears consegue respeitar o genial e irreverente espirito do livro, assim como incutir soluções visuais (os delirios de Rob) e narrativas (as confissões para a camara) inspiradas e inesperadas, John Cusack é a incarnação perfeita do anti-heroi romântico obcecado por pop-rock e relações falhadas. O Rob de Cusack é um poço de contradições: chauvinista, vulnerável, sensivel e egoista. Ou seja um grande personagem. Divertido, inesperado, comovente e sincero High fidelity é daqueles filmes que me são profundamente pessoais e que devo ja ter visto umas 10 vezes (o livro vai na 5ª releitura). Tal como uma boa canção, é um filme a que se volta com um prazer constantemente renovado.

quarta-feira, março 04, 2009

Taxi Driver (1976)

de Martin Scorsese

“All the animals come out at night - whores, skunk pussies, buggers, queens, fairies, dopers, junkies, sick, venal. Someday a real rain will come and wash all this scum off the streets.”

Palavras de Travis Bickle, um anjo vingador vindo directamente do Antigo Testamento, através da escrita impiedosa de Paul Schrader e da câmara prodigiosa de Martin Scorsese. Aclamado como um dos grandes filmes dos anos 70, Taxi Driver foi a confirmação da promessa deixada em Mean Streets. Neste filme Scorsese, mergulha fundo na existência infernal do seu protagonista, fazendo uma alegoria à solidão, alienação e loucura que as grandes metrópoles podem causar. É impressionante a sinceridade e coragem da abordagem do realizador. Scorsese não desculpabiliza o seu personagem, nem o condena. A sua câmara regista o dia-a-dia de Travis, com uma abordagem quase subjectiva apoiada numa encenação ferozmente realista. E esse dia-a-dia está cheio de momentos ora cruelmente patéticos (a ida ao cinema com Betsy), ora cómicos (um dos taxistas a tentar desastradamente aconselhar Travis ou o alucinado passageiro que o próprio realizador interpreta) ora brutalmente chocantes e perturbadores ( a 1ª morte de Travis e o sangrento showdown final).
E depois temos De Niro. Que dizer de uma das maiores representações alguma vez dadas por um actor na história do cinema? O seu Travis é demente, desarmante e estranhamente tocante. De Niro consegue incorporar o seu personagem com um rigor e autenticidade inesqueciveis, que parecem fazer desaparecer as fronteiras entre personagem e actor. Como curiosidade, o actor fiel ao espírito do Actor Studio, conduziu um taxi pelas ruas de Nova Iorque duas semanas antes da rodagem do filme, para assim entrar na pele do seu personagem. Character studie, psicodrama, tragicomédia, este marco do cinema é acima de isso tudo, um filme sobre a solidão e sobre as consequências que uma sociedade perdida poderá causar num ser humano. Como nota final, Taxi Driver perdeu o Óscar de melhor filme para Rocky, comprovando a tendencia da Academia para injustiças gritantes, mas acabou consagrado em Cannes com a Palma de Ouro desse ano. Um filme marcante e essencial na minha vida.

quarta-feira, janeiro 28, 2009

Filmes da Minha Vida - XII

Passa por este épico policial uma onda de fúria, desespero, obsessão e tragédia, na figura de um Mickey Rourke num dos grandes papéis da sua vida. O seu torturado capitão Stanley White, é um dos personagens mais politicamente incorrectos de que há memória na história do cinema. Ele é racista, misógino e obcecado na sua cruzada contra a máfia chinesa. Graças a isso, White quase destrói todos os que estão à sua volta. Ele é claramente um personagem à margem, que leva a sua obsessão por justiça longe demais, com consequências trágicas e irreparáveis. Com a assinatura do oscarizado (e ostracizado) Michael Cimino, este filme é um dos grandes momentos do cinema dos anos 80. Com um argumento implacável escrito a meias com Oliver Stone, Cimino tentou com Year of The Dragon recuperar do desastre financeiro de Heavens Gate. Como curiosidade, Stone e Cimino chegaram a infiltrar-se nas tríades de Chinatown, para desta forma conferir autenticidade ao guião. Apesar dos resultados comerciais mais uma vez não terem sido famosos (e com acusações de racismo pelo meio) a mão de Cimino é magistral tanto na encenação da acção como no desenvolvimento dos personagens. Rourke e John Lone, degladiam-se de forma selvagem e sanguinária num choque de leis e de culturas. Nunca o cinema policial chegou tão alto como aqui. É um dos filmes essenciais na minha vida e isso deve-se ao trio Cimino, Stone e Rourke. Em suma, é uma obra-prima que carece de reavaliação crítica o quanto antes.

segunda-feira, junho 30, 2008

Filmes da Minha Vida - XI


O ínicio da ascensão de Eastwood ao reino dos autores. Bem, não é bem um ínicio, mas sim uma confirmação. Pois antes tinha havido o tão esquecido Honkytonk Man, que recordo como um dos seus filmes mais luminosos e ao mesmo tempo amargurados. Mas Unforgiven, merece todo o culto que tem à sua volta. Nunca o western foi tão desencantado, poético e seco. É simplesmente um dos retratos mais cruéis da história do cinema. Um caracter studie sem redenção. Aqui o arco do personagem é um arco fatalista, onde a morte é a única verdade na vida de William Munny. E depois Unforgiven está recheado de momentos antológicos. Como aquele diálogo existencialista (mas tão simples) junto a uma árvore. Ou aquela sequência do assassinato de um dos vaqueiros, onde assistimos à dificuldade inerente a tirar uma vida. Ou então, simplesmente aquele olhar do anjo da morte, em que William Munny se tornou, num dos mais terríficos showdowns de qualquer western do cinema. Cru, realista e muito profundo. Um dos filmes maiores de um grande,grande,cineasta.

quarta-feira, maio 28, 2008

Filmes da Minha Vida - X

Este drama sobre o veterano da guerra do Vietname, Ron Kovic, é um dos filmes mais trágicos de sempre e um dos trabalhos maiores de Oliver Stone. Começando na juventude de Kovic, seguindo sem concessões a sua queda, e finalmente assistindo ao seu renascimento como activista político. A sombra da tragédia está omnipresente em todo o filme, mas com um volte face final de alguma esperança. A realização hiper-realista de Stone é surpreendente e visceral. Quanto ao actor principal, não hesito em dizer, que a par de Magnolia, esta é para mim, a maior interpretação da carreira de Tom Cruise. A sua composição de Kovic, é de um rigor, dor e intensidade, como raramente se assistiu em cinema. Uma entrega total, merecedora do Oscar que lhe foi recusado. E finalmente uma palavra de apreço para uma das melhores bandas sonoras do mestre John Williams. Um dos melhores e mais dramáticos filmes a que ja pude assistir. Este é o Oliver Stone que me faz amar o cinema: agitando consciencias, revolvendo os nossos sentimentos e fazendo-nos deslumbrar com o poder da 7ª arte.

sexta-feira, maio 02, 2008

Reds (1981)

de Warren Beatty



Reds é antes de mais, um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes, alguma vez feitos em Hollywood. A sua feitura apenas foi possível devido à persistência e ao star-power de uma das suas maiores estrelas, Warren Beatty de seu nome. O financiamento para a realização de um épico sobre um líder comunista, autor de um dos livros mais fieis aos acontecimentos da Revolução Russa e o único americano sepultado no Kremlin, revelou-se uma tarefa quase impossivel. Especialmente tendo em conta o fervor anti-comunista, que reinava na altura numa América em plena Guerra Fria. Mas a tenacidade de Beatty levou a melhor, conseguindo o apoio da Paramount, e assegurando um controlo criativo total, interpretando, realizando, escrevendo e produzindo o filme. Após dois anos de rodagem e montagem, o filme estreava finalmente em 81. Imediatamente afirmou-se como um grande sucesso nas bilheteiras, e um dos filmes mais nomeados na história dos Oscars (13 nomeações, sendo 4 para Beatty, que igualou assim Orson Welles). Ou seja Reds torna-se um triunfo artístico e comercial sem precedentes na carreira do seu autor.

Abordando as ilusões e desilusões inerentes às utopias, a história de amôr de John Reed (Beatty) pela ideologia comunista, assim como pela mulher da sua vida, Louise Bryant, é contada de forma original, complexa e muitíssimo eficaz. A narrativa gira em torno da relação entre Reed e Bryant, dois intelectuais radicais, que com uma relação no mínimo tumultuosa (com infedelidades de parte a parte), reencontram o amor no mais surpreendente dos cenários, em plena Revolução Russa. A partír daí, Reed e Bryant regressam ao Estados Unidos, tentando espalhar a mensagem aquilo que viram na Russia, na esperança de assim agitar, e eventualmente revolucionar a sociedade americana. Reed acaba mesmo por abandonar o jornalismo e converte-se num dos primeiros líderes do partido comunista americano. Mas essa conversão irá fazê-lo regressar à Russia, deixando Louise para trás.

Vários são os momentos em que Reed, procura equilibrar o colectivo com o pessoal. A sua ideologia e o afecto. Mas esse equilibrio revela-se impossivel num estado totalitário. E esse é uma das maiores virtudes desta obra apaixonante: apesar de Beatty sentir uma óbvia simpatia para com a utopia comunista, há uma altura que o seu protagonista é forçado a constatar que o sonho se tornou um pesadelo. Um exemplo marcante, é o discurso que Reed faz para uma plateia de radicais muçulmanos, onde vê as suas palavras traduzidas de “guerra de classes” para “guerra santa” criando assim uma histeria eufórica na sua audiencia. Mais tarde é lhe dito que o seu discurso foi alterado, por não ser propagandistico o suficiente. Além de actualissima, essa cena revela toda a manipulação que o indivíduo sonhadôr, pode sofrer num colectivo que se rege de forma totalitária. Ou seja Beatty dá uma no cravo e outra na ferradura. E muito bem! Nunca negando a complexidade e a veracidade do tema que aborda, perservando a integridade da obra. E que dizêr daquele reencontro final na estação, em que uma ansiosa Louise Bryant, que após regressar à Rússia clandestinamente, finalmente encontra um destroçado Reed, criando um dos momentos mais comoventes a que assisti num filme. Além do mais, a história de amôr entre os protagonistas é palpável e nunca é abordada de forma sentimental, o que só lhe dá mais força.

E depois Beatty, tem outro momento inspirado. Convocando para este épico intimista, aquelas deliciosas “testemunhas” idosas. Escritores, intelectuais, militares, que conheceram e privaram de perto, com os verdadeiros John Reed e Loise Bryant. As suas intervenções ao longo do filme, narrando as suas experiencias conjuntas, são de uma candura, verdade e humor, simplesmente desarmantes Esta técnica documental, reforça a autenticidade de Reds, e dá uma ressonância singular às imagens que vemos. E claro que falar de Reds, é falar daquele cast portentoso onde brilham a grande altura Maureen Stapelton (com um oscar mais que merecido), Jerry Kozinski, Gene Hackman e Jack Nicholson (num surpreendente underacting). E as imagens que Vitorio Storaro criou? Que dizer daquelas composições inesquéciveis, ou do tratamento cromático, que nos dá a sensação de vêr um filme a preto e branco? O seu oscar é também inteiramente justo.

Tudo neste filme se conjuga de forma perfeita. Arte, entretenimento, política, amor, História. Reds é a prova que Warren Beatty por detrás daquela fama de galã de Hollywood, é antes demais, um cineasta de um talento e coragem imensas. Um dos grandes grandes filmes da minha vida.

domingo, abril 27, 2008

Filmes da Minha Vida - IX


Obra explosiva de Michael Cimino. Com Robert de Niro num dos seus grandes papéis, e Christopher Walken, inesquecivel na pele do perturbado Nick (papel que lhe valeu o Oscar). Cimino aplica um ritmo deliberadamente lento, mas adequadissimo, a esta história sobre a perda das ilusões e da destruição da inocência. Balançando entre sequências ora líricas (as caçadas nas montanhas) ora violentíssimas (o capitulo no Vietname), The Deer Hunter foi na altura da sua estreia considerado de racista, devido ao retrato que faz dos vietnamitas. Se essa acusação é verdadeira ou não, é algo de somenos importância, tal é a intensidade das cenas e o impacto emocional causado no espectador. A musica, a fotografia e a edição são tambem sublimes. Um dos filmes maiores da minha época favorita de Hollywood, os anos 70.

terça-feira, março 25, 2008

Filmes da Minha Vida - VIII


Adulto, desencantado, provocador, subversivo, arriscado, polémico. Munich é isso e muito muito mais. E é por isso mesmo que adoro este filme. Uma obra maior, incompreendida e inesperada, de um dos maiores nomes de Hollywood. Com um casting perfeito (enorme Eric Banna), uma equipe no auge (destaque para Janus Kaminski e John Williams)e um realizador apostado em usar o seu enorme poder, para chegar de forma justa e sem concessões, ao âmago de algumas das mais pertinentes questões éticas, morais e humanas alguma vez abordadas em filme. O facto de vir de Hollywood, só valoriza este obra única na carreira de Spielberg. Um filme de uma profundidade tocante que assombra o espectador muito após a saída do cinema. E aquele plano final...

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Filmes da Minha Vida - VII


"If you want me to keep my mouth shut, it's gonna cost you some dough. I figure a thousand bucks is reasonable, so I want two. "
Tom Reagen


Assinado em 1990 pelos irmãos Coen, este é daqueles filmes que quem viu não esquece. Apostados em homenagear um dos seus autores favoritos, Dashiel Hammet, os Coen, assinam este portentoso trabalho, recheado de referências cinéfilas a vários filmes de gangsters. Envolvido no meio de uma guerra de gangs, Tom Reagen (Gabriel Byrne no papel da sua vida) irá têr de escolher entre a lealdade ao seu patrão (um poderoso Albert Finney) ou à companhia da mulher que o ama (Marcia Gay Harden). Mas será que tudo é o que parece? Como diz a certa altura um dos personagens: “Up is Down. Black is White.”O tom é nilista e extremamente negro, e a violência explosiva não é para todos. Tem um enredo complexo e genial, uma fotografia deslumbrante, uma realização de mestre e interpretações inesquéciveis. E depois para além disso tudo, há aquela música fantasmagórica de Carter Burwell, plena de nostalgia e melancolia. Perfeita neste mundo único que é Millers Crossing. Fracasso de bilheteira na altura da sua estreia, Millers Crossing conquistou o estatuto de filme de culto e destaca-se como um filme fundamental no universo dos Coen, sendo o seu trabalho mais bem conseguido até hoje. Para mim, uma obra-prima apaixonante.

domingo, janeiro 06, 2008

Filmes da Minha Vida - VI

A pérola na filmografia de Spielberg. A par do recente Munique, é o seu filme mais realista, pertinente e pessoal. Aquando da sua estreia vi-o pelo menos 3 vezes em sala. As interpretações são únicas: o magnetismo assombroso de Liam Neeson e a malovolência que Ralph Fiennes emana. A fotografia é um achado: a primeira colaboração entre o cineasta e o brilhante Janus Kaminski, transmite toda a melancolia e tristeza que a história conta. A montagem de Michael Kahan é original e francamente virtuosa, conseguindo com o simples poder de um corte entre dois planos, falar mais que mil palavras. A banda sonora é imortal: aqueles acordes de Itzhak Perlman e John Williams, arrepiam sempre que os oiço. E por fim a realização, o verdadeiro ás de trunfo desta magnífica obra de arte, que é do mais cinematográfico e inspirado que Spielberg alguma vez conseguiu, com inúmeros momentos transcendentes que levam o espectador numa viagem com tanto de horrível, como de sublime.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

Filmes da Minha Vida - V

Autoretrato narcisista para alguns. Obra de arte corajosa, original e única para outros. No meu caso revejo-me na 2ª posição. Dívidido em 3 segmentos (Vespa, Ilhas e Médicos) Caro Diario é um retrato fascinante e surpreendente ao lado pessoal, emocional e intelectual de um dos maiores nomes do cinema mundial. O 1º segmento está cheio de referências incontornáveis na memória deste cinéfilo. Os passeios de Moretti por uma Roma deserta ao som de Leonard Cohen, ou a visita a um desolado monumento dedicado a Pier Paolo Pasolini ao som de Keith Jarret. Vespa é o capítulo mais sensorial. O 2º segmento é uma sátira à sociedade italiana, abordando um tema recorrente na obra de Nanni Moretti, a incomunicabilidade (magníficamente representada pelas ilhas em questão) Ilhas é o capítulo cómico e satírico. A 3º e último segmento, é o meu favorito dos 3. Médicos, é um retrato cómico e ao mesmo tempo comovente, da odisseia que Moretti viveu na realidade, ao tentar descobrir a origem de uma misteriosa doença que o afligiu durante um ano. Neste segmento temos uma 1ª cena em que Moretti se filma numa situação real e em que partilha directamente com o espectador um momento verdadeiramente doloroso. Médicos é o capítulo mais pertinente e emocional. Uma obra hilariante, dramática, sensível e poética. Um filme que revejo vezes sem fim e que é uma verdadeira fonte de inspiração.

quarta-feira, novembro 28, 2007

Filmes da Minha Vida - IV


Entretenimento? Sim. Escapista? Definitivamente! Ocasionalmente inverosímil? Sem dúvida. Mas afinal de contas não é isso que por vezes nos leva ao cinema? Exemplo máximo da qualidade que pode emergir do cinema-pipoca, este é daqueles filmes em que a mão e a originalidade do seus criadores (Spielberg e Lucas), levam o espectador numa montanha-russa de emoções, através de personagens bigger than life, em aventuras que sucedem num ritmo verdadeiramente halucinante. Além da virtuosa realização de Spielberg (recheada de citações cinéfilas), ou da magnífica representação de Harrisson Ford (no papel que o inscreve nas grandes figuras da história de cinema), ou ainda da inesquécivel banda sonora do maestro John Williams, Raiders of the Lost Ark, é um marco na história do cinema. Com tanto de comercial como de artístico, um filme brilhante e incontornável. Até para o mais sisudo dos cinéfilos.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Filmes da Minha Vida - III


Mais que o filme que marca o encontro entre dois monstros do cinema, Pacino e De Niro (no Godfather 2 nunca chegam a contracenar), este é dos poucos policiais que consegue transcender os limites do seu género. Os seus personagens são retratados de uma forma profundamente real e humanista, e ao mesmo tempo impregnadas de um fatalismo, que eleva o filme a níveis sublimes. A câmara de Michael Mann (esse grande grande cineasta tão subvalorizado) nunca esteve tão inspirada, aguerrida e ao mesmo tempo poética. Planos de um deslumbre visual total (a sequência de De Niro e Amy Brennan contemplando as mil luzes de LA é daquelas que fica gravada na memória), direcção de actores impressionante (especialmente De Niro no seu último grande papel) e uma banda sonora electrónica perfeita (como é marca do cinema de Mann). Um filme que vejo e revejo vezes sem conta, e onde descubro sempre algo de novo. Heat é realmente uma obra-prima moderna!

segunda-feira, novembro 19, 2007

Filmes da Minha Vida - II


Uma verdadeira proeza este filme mágico. Realizado, produzido e interpretado por Kevin Costner, que teve aqui o pico da sua carreira. Esta história de um homem que foi à procura da fronteira e acabou por se descobrir a si próprio, é um dos mais líricos e mais belos westerns da história. A evolução de John Dunbar até se converter em Danças com Lobos, é uma viagem fascinante. Belíssimas imagens, sequências inesquéciveis (aquela caça ao bufallo ou o inesperado e dramático final), representações fortes e especialmente uma banda sonora recheada de melodias sublimes, assinada pelo mestre John Barry, que para mim é capaz de ser uma das mais perfeitas conjugações entre música e imagem a que alguma vez assisti. Um filme intemporal e de forte pendor humanista! Magnífico!

sexta-feira, novembro 09, 2007

Filmes da Minha Vida - I


Um filme muito á frente do seu tempo. Temas como racismo, obcessão e solidão, num Western único, dirigido magistralmente pelo maior mestre do cinema clássico, o mítico John Ford. Fotografado de forma deslumbrante e com uma carga emocional avassaladora. Não é por acaso que é o filme favorito de senhores como Scorsese, Lucas, Leone, Spielberg, Lean, Millius ou Tarantino. Além disso, John Wayne compõe um Ethan Edwards, ambíguo e anti-heróico, revelando o grande actor que era. Apetece mesmo citar John Millius: "quem diz que John Wayne não sabe representar é porque nunca viu The Searchers".

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