


Fidel Castro e Oliver Stone só podia resultar em controvérsia. Nem é tanto o caso do contéudo, pois a abordagem de Stone apesar de muito informal é respeitosa para com o líder cubano. A controvérsia, deu-se quando este excelente retrato foi censurado nos Estados Unidos, terra das liberdades e das hipocrisias. A HBO sofreu pressões enormes, e acabou para relegar este documentário directamente para dvd, pois este não é um acto de denúncia a um ditador, mas sim o retrato de vida de um revolucionário, contado na 1ª pessoa. No decurso de 3 dias em Cuba, Stone e a sua pequena equipa de filmagem registaram os pensamentos de Fidel acerca da Revolução Cubana, da sua família e origens, de Che Guevarra, da ameaça e embargo americano, de cinema e das suas...mulheres. O filme tem momentos hilariantes (o jogging de Fidel no seu escritório ou a busca que Stone faz ao seu carro) e reveladores (a visão que Fidel tem da política conduzida por George Bush e a euforia com que o povo cubano o saúda sempre que o vê na rua). Filmado num registo guerrilha, com câmaras mini-dv, sustentado numa montagem não linear diabólica e com um protagonista polémico e fascinante, Oliver Stone tem em Comandante um dos pontos altos da sua carreira, assinando um importante documento histórico, sobre uma das grandes figuras do século XX.

Nomeado para 6 oscars no ano de 2006, este filme é mais um gesto corajoso e político na carreira do seu realizador, a estrela George Clooney(um pouco à imagem de Warren Beatty com o seu Reds). Apoiado por um elenco de luxo onde alem do brilhante David Straithairn, se destacam Robert Downey Jr, Jeff Daniels, Ray Wise e Frank Langella. A fotografia evocativa e a realização claustrofóbica criam um ambiente de pressão e tensão, onde a parada vai subindo, conforme a batalha entre a Edward Morrow e o senador McCarthy aumenta de intensidade. Mas apesar dos méritos e esforços dos talentos envolvidos, Good Night And Good Luck deixa um sabor a pouco. Além dos descabidos interlúdios musicais, que travam o ritmo da acção, o filme sofre de uma grave falha: falta-lhe uma conclusão dramaticamente eficaz (e o final ambíguo também não ajuda nesse ponto). Seja como fôr trata-se de uma película inteligente e corajosa a espaços, que pegando numa situação de há 50 anos atrás, faz uma reflexão pertinente acerca do poder e dever da imprensa na sociedade actual. Apesar disso muito distante do fulgor ou qualidade artística de um certo filme de seu nome, The Insider.

E quando eu menos esperava... BOOM! Finalmente um estrondo de filme! Até agora a guerra do Iraque tinha ficado palidamente retratada pela 7ª arte. Filmes como The 3 Kings, Redacted ou In The Valley of Ellah, constituiram nobres, mas pálidos esforços. Teve de ser uma mulher a perceber a sede de guerra dos homens. A mulher é nem mais nem menos que a ex Mrs. James Cameron, de seu nome Kathryn Bigellow. Arrisco dizer que Bigellow é a melhor realizadora a trabalhar nos EUA. A sua carreira indica uma coragem temática e formal que está ao alcance de poucos cineastas. E em The Hurth Locker, Bigellow chega ao coração da guerra. Essa coração é feito de perigo, camaradagem, medo, paranoia, rituais, violencia, morte e exitação. E é no personagem do sargento interpretado por Jeremy Renner (atenção a este senhor), que a realizadora revela a sua peculiar e astuta abordagem à loucura da guerra. Renner assina um personagem que por detrás de um heroísmo kamikaze, esconde um lado ambíguo e traumatizado, mas que acaba por ceder à adrenalina de desafiar a morte. E depois temos aqueles 5 minutos finais, que sem dizerem nada, dizem tudo o que ha para dizer, resumindo de forma brilhante e inesperada, toda a temática de The Hurt Locker. Para mim um dos grandes filmes do ano.
Pelo trailer parecia que Michael Mann iria levar-nos de regresso às temáticas e à mestria cinematográfica da sua obra-prima, o incontornável Heat. Puro engano. Em comum com essa película temos a história de um brilhante ladrão de bancos, que é perseguido implacavelmente por um obcecado agente da lei. E apesar dos parelelismos com Heat, Public Enemies, não se aproxima sequer da poesia ou do furor desse filme. Depp e Bale estão a léguas de distância de Pacino e De Niro. E perdoem-me os puristas, mas aqui, acho que Mann levou a secura longe demais. Na sua inecessante busca pelo realismo e autenticidade, Mann esqueceu-se de fugir aos lugares comuns que por vezes estão presentes na realidade. E isso num filme de género como é este, pode ser um erro. O que procuramos quando pagamos um bilhete e ficamos durante 2h30m numa sala de cinema, é a surpresa, o sublime ou a emoção. E a emoção, aqui só está presente a espaços. Destaque para cenas muito bem conseguidas como a “tortura” de Marianne Coultiard, ou a reação de Bale à desumanização da sua polícia. Mas fora isso, o que temos é Mann a caminhar território familiar, com tiroteios, romance e violência, mas que inesperadamente, em Public Enemies soa a deja vu.
Alem de Bale e Coultiard, Johnny Depp está seguro, mas com um personagem demasiado enigmático. Voltando a Heat, o anti-heroi que era o Neil McCaulley de De Niro tambem tinha motivos obscuros e uma presença fria. Mas aí De Niro e Mann conseguiram fazer-nos sentir (quase subliminarmente) toda a emoção e humanidade reprimida daquele personagem. Em Public Enemies, nunca há essa emoção. Mann está mais fascinado com a ideia de celebridade de um criminoso, do que propriamente com os seus conflitos interiores ou aspirações. E se no campo técnico o filme é irrepreensivel (aqui Mann não sabe falhar), a fotografia apesar de boa, nunca chega a níveis brilhantes. Destaque para o imenso cast (Stephern Dorff, Billy Cudrup, Giovanni Ribisi, James Russo) que não tem material para criar personagens de carne e osso e se limita a dar as suas deixas. As três estrelas são para a ousadia digital da fotografia, a reconstituição histórica, as interpretações seguras e para alguns bons momentos de Mann. Mas no conjunto da sua obra, não hesito em afirmar: para mim este é um filme menor de um grande cineasta.
Sátira ácida aos clichés dos filmes de guerra, assim como caricatura aos caprichos das estrelas de Hollywood, Tropic Thunder é uma das grandes comédias de 2008. Ben Stiller nos comandos da realização, assina uma obra delirante e excessiva, onde um grupo de actores se vê perdido em plena selva tailandesa enfrentando as situações com que se deparam, julgando fazerem parte do filme que supostamente estariam a rodar. Do realizador lunático, à estrela do "método", do heroi de acção imbecil, à vedeta de comédias flatulentas, do produtor tirânico e violento ao agente obcecado com os caprichos da sua estrela, toda a Hollywood é ridicularizada. O casting é a todos os niveis, brilhante e hilariante. Jack Black, Robert Downey Jr, Ben Stiller, Nick Nolte, Matthew McConaughey e Tom Cruise, assinam personagens desarmantes e caricaturais que expoem ao ridiculo, todas os tiques e cliches dos bastidores do cinema blockbuster. Por vezes o realizador força o tom em algumas cenas (alguma violencia excessiva que parece deslocada), mas as reações e diálogos dos seus personagens, são tão absurdos e dementes que qualquer erro de percurso é rapidamente esquecido. Em suma não é uma obra-prima, mas Tropic Thunder é a garantia de muita gargalhada e boa disposição. E atenção ao genérico final: Tom Cruise como nunca o imaginaram...

THE GODFATHER - PART III
Filmes da Minha Vida - XV

Indiana Jones And The Kingdom of The Crystal Skull
Tentativa descarada para rentabilizar financeiramente as aventuras deste herói querido por todos os amantes do bom cinema. Este Kristal Skull é apenas o mais imbecil e descaracterizado filme da carreira deste grande cineasta. Do guião ridículo, ao CGI espatafurdio e aberrante, passando pelo mais completo desgoverno de personagens em piloto automático, nada parece funcionar nesta sequela completamente dispensável. Este será para mim, o pior momento de um cineasta a todos os níveis sublime. Esperemos que Tintin o reabilite, pois Spielberg ficou muito mal neste retrato digital sobre um herói analógico, que merecia ter sido mais bem tratado.
Este esquecido mas belíssimo filme de 1990, assinalou o terceiro passo de Clint Eastwood em se afastar de um cinema mais comercial, para poder abordar obras mais pessoais e por consequencia com um maior fulgor artístico. Antes tinha havido essa obra prima tão injustamente ignorada de seu nome Honkytonk Man (1982) e o galardoado Bird (1988) E diga-se desde já, que White Hunter Black Heart, figura sem problemas na lista de filmes maiores deste enorme autor americano. Esta história sobre um realizador de cinema (inspirado em John Huston) que está mais interessado em “cometer o pecado” de matar um elefante, em detrimento de iniciar a rodagem do seu filme, está recheada de momentos que apenas Clint Eastwood consegue nos oferecer. Sejam as magníficas e hilariantes sequências cómicas (a cena com a simpatizante nazi, ou a sessão de pugilismo com o gerente do hotel), ou então com um tom mais negro e soturno, que viria a marcar a sua obra posterior e que daria início à sua consagração enquanto cineasta. Esse negrume e complexidade manifesta-se aqui num dos finais mais dolorosos e comoventes na obra de Eastwood. Essa sequência final é o culminar natural da odisseia (interior) de um personagem extremamente complexo e contraditório, que fecha esta película dando início ao seu filme (dentro do filme) com aquela palavra sussurrada e torturada e com o subtexto de uma tragédia que ficou para trás: a palavra acção.



Aproveito para deixar um excerto de uma das suas (muitas) brilhantes e apaixonadas análises. Neste caso acerca de Casino de Scorsese. A sua escrita revela um conhecimento e uma perspicácia cinéfila, apenas ao alcance de um grande senhor.
"Prodigiosa colagem musical, prodigiosa vertigem musical, a banda sonora segue, no vórtice e no vértice, o não menos prodigioso barroquismo da narração e das imagens, com o mesmo fôlego e a mesma dispersão. Porque Casino é um filme disperso, um filme gastador, que enche as margens (os mil e um episódios, aparentemente secundários, que podiam dar mil e um filmes diversos) para desnudar o centro, o centro trágico que é praticamente resumido na frase inicial e na presença-ausência do personagem de L.Q.Jones. E talvez não haja muitos exemplos de absolutismo trágico para pôr ao lado de duas sequências como a da morte de Nick, depois de ver matar o irmão, ou a do corredor do hotel, onde Sharon Stone, penteada à Simone Signoret, esbanjou os milhões de dólares até à última overdose. Uma (a da morte de Pesci) em ruído e fúria, excessiva e operática. A outra (a que nos fala da morte de Sharon Stone) em silêncio e vazio, minimal e surda.Se, um dia, alguém quiser saber como foram os anos 60 e 70, The Last Waltz de Scorsese diz-lhe tudo. Se, um dia, alguém quiser saber como foram os anos 70 e 90, Casino de Scorsese diz-lhe tudo."
Além de sêr um dos mais belos filmes da história do cinema, The Grapes of Wrath é um fortíssimo manifesto anticapitalista e um acto de denúncia social poderoso, que era actual em 1940 e é actual agora. John Ford mostra o lado humano de uma crise económica, com a sua família Joad à deriva pela América, em busca de uma oportunidade que lhe é recusada por uma sociedade corrupta, viciada e desprovida de humanidade. Nunca um filme retratou tão fielmente o que é sêr pobre e o estar perante a ausência de opções para sobreviver. Ford foi o último dos humanistas, um ferveroso crente do sonho americano e um cineasta intemporal que assinou alguns dos mais belos filmes de sempre. E este The Grapes of Wrath, 69 anos depois continua actualíssimo. É obra!
Mais que uma simples cowboiada de luta entre os bons (os soldados) e os maus (os índios) Forte Apache foi dos primeiros filmes a revelar uma visão justa e humana do problema índio. E quem mais senão John Ford, para trazer a à baila essa complexidade, através da dramatização de um personagem complexo e contraditório como o militar interpretado brilhantemente por Henry Fonda (aqui longe dos seus heróis impolutos). O seu coronel Thursday é um homem obcecado com a disciplina militar e com uma ideia de glória bélica, tremendamente ambicioso e perigosamente cego para a realidade que o rodeia a ele e aos seus homens. A espaços Thursday fez-me lembrar Ethan Edwards, na sua busca cega e intolerante. O contraponto desta visão é dado por um sólido John Wayne, na figura do sensato e flexível Capitão York. Menos preso à rigidez militar, e mais querido pelos seus subordinados, York tenta a todo custo abrir os olhos do seu superior hierárquico, procurando evitar o desastre que a conduta de Thursday anuncia. São estes dois polos opostos, que chocam e que trazem resultados trágicos e dramáticamente sublimes. Como sempre, Ford delicia-se ( e delicia-nos ) com uma atenção perspicaz aos pormenores de pompa e circustancia, os códigos de conduta militar, o humor irlandês (enorme Victor Mclagen) e as questões humanas, sociais e políticas que envolvem a história. Nada é demais, nem de menos em Ford, pois o equilíbrio entre os vários tons é conseguido de forma magistral. E depois temos aquele final, agridoce, com direito a glória na derrota, mas aqui com um sabor a falso, pois tal como em The Man Who Shot Liberty Valance, "when the legend becomes truth, print the legend"