

Sátira ácida aos clichés dos filmes de guerra, assim como caricatura aos caprichos das estrelas de Hollywood, Tropic Thunder é uma das grandes comédias de 2008. Ben Stiller nos comandos da realização, assina uma obra delirante e excessiva, onde um grupo de actores se vê perdido em plena selva tailandesa enfrentando as situações com que se deparam, julgando fazerem parte do filme que supostamente estariam a rodar. Do realizador lunático, à estrela do "método", do heroi de acção imbecil, à vedeta de comédias flatulentas, do produtor tirânico e violento ao agente obcecado com os caprichos da sua estrela, toda a Hollywood é ridicularizada. O casting é a todos os niveis, brilhante e hilariante. Jack Black, Robert Downey Jr, Ben Stiller, Nick Nolte, Matthew McConaughey e Tom Cruise, assinam personagens desarmantes e caricaturais que expoem ao ridiculo, todas os tiques e cliches dos bastidores do cinema blockbuster. Por vezes o realizador força o tom em algumas cenas (alguma violencia excessiva que parece deslocada), mas as reações e diálogos dos seus personagens, são tão absurdos e dementes que qualquer erro de percurso é rapidamente esquecido. Em suma não é uma obra-prima, mas Tropic Thunder é a garantia de muita gargalhada e boa disposição. E atenção ao genérico final: Tom Cruise como nunca o imaginaram...

THE GODFATHER - PART III
Filmes da Minha Vida - XV

Indiana Jones And The Kingdom of The Crystal Skull
Tentativa descarada para rentabilizar financeiramente as aventuras deste herói querido por todos os amantes do bom cinema. Este Kristal Skull é apenas o mais imbecil e descaracterizado filme da carreira deste grande cineasta. Do guião ridículo, ao CGI espatafurdio e aberrante, passando pelo mais completo desgoverno de personagens em piloto automático, nada parece funcionar nesta sequela completamente dispensável. Este será para mim, o pior momento de um cineasta a todos os níveis sublime. Esperemos que Tintin o reabilite, pois Spielberg ficou muito mal neste retrato digital sobre um herói analógico, que merecia ter sido mais bem tratado.
Este esquecido mas belíssimo filme de 1990, assinalou o terceiro passo de Clint Eastwood em se afastar de um cinema mais comercial, para poder abordar obras mais pessoais e por consequencia com um maior fulgor artístico. Antes tinha havido essa obra prima tão injustamente ignorada de seu nome Honkytonk Man (1982) e o galardoado Bird (1988) E diga-se desde já, que White Hunter Black Heart, figura sem problemas na lista de filmes maiores deste enorme autor americano. Esta história sobre um realizador de cinema (inspirado em John Huston) que está mais interessado em “cometer o pecado” de matar um elefante, em detrimento de iniciar a rodagem do seu filme, está recheada de momentos que apenas Clint Eastwood consegue nos oferecer. Sejam as magníficas e hilariantes sequências cómicas (a cena com a simpatizante nazi, ou a sessão de pugilismo com o gerente do hotel), ou então com um tom mais negro e soturno, que viria a marcar a sua obra posterior e que daria início à sua consagração enquanto cineasta. Esse negrume e complexidade manifesta-se aqui num dos finais mais dolorosos e comoventes na obra de Eastwood. Essa sequência final é o culminar natural da odisseia (interior) de um personagem extremamente complexo e contraditório, que fecha esta película dando início ao seu filme (dentro do filme) com aquela palavra sussurrada e torturada e com o subtexto de uma tragédia que ficou para trás: a palavra acção.



Aproveito para deixar um excerto de uma das suas (muitas) brilhantes e apaixonadas análises. Neste caso acerca de Casino de Scorsese. A sua escrita revela um conhecimento e uma perspicácia cinéfila, apenas ao alcance de um grande senhor.
"Prodigiosa colagem musical, prodigiosa vertigem musical, a banda sonora segue, no vórtice e no vértice, o não menos prodigioso barroquismo da narração e das imagens, com o mesmo fôlego e a mesma dispersão. Porque Casino é um filme disperso, um filme gastador, que enche as margens (os mil e um episódios, aparentemente secundários, que podiam dar mil e um filmes diversos) para desnudar o centro, o centro trágico que é praticamente resumido na frase inicial e na presença-ausência do personagem de L.Q.Jones. E talvez não haja muitos exemplos de absolutismo trágico para pôr ao lado de duas sequências como a da morte de Nick, depois de ver matar o irmão, ou a do corredor do hotel, onde Sharon Stone, penteada à Simone Signoret, esbanjou os milhões de dólares até à última overdose. Uma (a da morte de Pesci) em ruído e fúria, excessiva e operática. A outra (a que nos fala da morte de Sharon Stone) em silêncio e vazio, minimal e surda.Se, um dia, alguém quiser saber como foram os anos 60 e 70, The Last Waltz de Scorsese diz-lhe tudo. Se, um dia, alguém quiser saber como foram os anos 70 e 90, Casino de Scorsese diz-lhe tudo."
Além de sêr um dos mais belos filmes da história do cinema, The Grapes of Wrath é um fortíssimo manifesto anticapitalista e um acto de denúncia social poderoso, que era actual em 1940 e é actual agora. John Ford mostra o lado humano de uma crise económica, com a sua família Joad à deriva pela América, em busca de uma oportunidade que lhe é recusada por uma sociedade corrupta, viciada e desprovida de humanidade. Nunca um filme retratou tão fielmente o que é sêr pobre e o estar perante a ausência de opções para sobreviver. Ford foi o último dos humanistas, um ferveroso crente do sonho americano e um cineasta intemporal que assinou alguns dos mais belos filmes de sempre. E este The Grapes of Wrath, 69 anos depois continua actualíssimo. É obra!
Mais que uma simples cowboiada de luta entre os bons (os soldados) e os maus (os índios) Forte Apache foi dos primeiros filmes a revelar uma visão justa e humana do problema índio. E quem mais senão John Ford, para trazer a à baila essa complexidade, através da dramatização de um personagem complexo e contraditório como o militar interpretado brilhantemente por Henry Fonda (aqui longe dos seus heróis impolutos). O seu coronel Thursday é um homem obcecado com a disciplina militar e com uma ideia de glória bélica, tremendamente ambicioso e perigosamente cego para a realidade que o rodeia a ele e aos seus homens. A espaços Thursday fez-me lembrar Ethan Edwards, na sua busca cega e intolerante. O contraponto desta visão é dado por um sólido John Wayne, na figura do sensato e flexível Capitão York. Menos preso à rigidez militar, e mais querido pelos seus subordinados, York tenta a todo custo abrir os olhos do seu superior hierárquico, procurando evitar o desastre que a conduta de Thursday anuncia. São estes dois polos opostos, que chocam e que trazem resultados trágicos e dramáticamente sublimes. Como sempre, Ford delicia-se ( e delicia-nos ) com uma atenção perspicaz aos pormenores de pompa e circustancia, os códigos de conduta militar, o humor irlandês (enorme Victor Mclagen) e as questões humanas, sociais e políticas que envolvem a história. Nada é demais, nem de menos em Ford, pois o equilíbrio entre os vários tons é conseguido de forma magistral. E depois temos aquele final, agridoce, com direito a glória na derrota, mas aqui com um sabor a falso, pois tal como em The Man Who Shot Liberty Valance, "when the legend becomes truth, print the legend"
t, Ferrara, Kurosawa, Wilder, Fincher, Ray, Wenders e muitos, muitos mais... têm as suas obras disponiveis para download directo no espaço My One Thousand Movies. Simplesmente o paraíso cinéfilo da blogosfera portugesa.(para ir para lá é só clicar na imagem)
Estrondoso sucesso comercial e artístico em 1985, Witness é um marco na carreira do seu realizador e do seu actor principal. Peter Weir assina o seu primeiro filme americano com resultados quase sublimes. A sensibilidade do cineasta australiano, torna este thriller em muito mais que isso. Apesar de ser um policial vibrante, Witness é acima de tudo uma delicada e inspirada história de um amor impossível, causado pelo contraste de dois mundos muito diferentes. Se o universo de John Book é violento e urbano, o de Rachel Lapp é solidário e anacronicamente idílico. É desse conflito de culturas, que nascem os melhores momentos deste filme nomeado para 8 oscars. Uma dessas nomeações foi precisamente para Harrison Ford ( a sua única até hoje ). O seu John Book é dos personagens mais complexos que o actor interpretou até hoje. Com uma subtileza até então desconhecida, Ford consegue transmitir força, vulnerabilidade, brutalidade e carência. Essas emoções demonstram o alcance interpretativo de Ford, provando que é muito mais que um heroi de aventuras e FC. Destaque tambem para a luminosa Kelly McGillis, para o pequeno Lucas Hass e para um cruel Danny Glover.Apesar da plot assentar em alguns clichés do policial (os polícias corruptos), os magníficos actores, a abordagem quase lírica de Peter Weir (que foca emoções, olhares e ambientes) fazem de Witness um dos grandes filmes da colheita de 85 e o melhor filme do seu realizador, lado a lado com The Truman Show.
Lyne opta por um tom muito mais sóbrio, que a abordagem de Kubrick. Enquanto o filme de 62 apostava no humor negro e na sátira, esta nova adaptação, caminha em terrenos da obsessão, drama e tragédia. Alem do mais, creio que os contornos e complexidades, de uma relação condenada (e condenável) à partida, são muito melhor explorados nesta película. Para isso, contribuiu enormemente a personagem torturada e dividida de Jeremy Irons, num dos seus grandes papéis, assim como o seu objecto de desejo, uma Dominic Swain, que transmite toda a tentação, inocencia e manipulação de forma tórrida e por vezes comovente. De destacar tambem a presença de Frank Langella (Frost/Nixon) no papel do monstruoso pedófilo Quilty, que nas poucas cenas em que aparece, transmite uma aura maléfica e perturbante. Ao pé de Quilty, Humbert parece um inocente, tal o nível de perversão deste personagem.
"Light of my life, fire of my loins. My sin, my soul. Lo... Li... Ta"

A sombra da dúvida paira neste filme do argumentista (Moonstruck, Alive)tornado realizador, John Patrick Shanley (Joe Against the Volcano). Quem é aquela sinistra freira interpretada magistralmente por Meryl Streep? Ou quais os reais motivos do (aparentemente) simpático e progressista padre superiormente encarnado por Philip Seymour Hoffman? Doubt faz justiça ao seu título até aquele final que nos deixa na ... dúvida.
Baseado numa peça da sua autoria, John Patrick Shanley adapta com mão segura o seu texto original. O guião deixa-nos constantemente na dúvida quanto aos motivos, emoções e acções dos personagens, o que nos aguça a curiosidade e o interesse num crescendo dramático, até chegar-mos aquele final, que deixará muita gente a pensar no filme, muito depois de saír da sala de cinema. Pena é que as raízes teatrais desta obra, se encontrem demasiado vincadas, pois o facto de toda a narrativa se prender num único local, torna por vezes o filme algo monótono visualmente.
Mas seja como fôr, o brilhante duelo dos dois actores principais, assim como um guião que aborda temas dificeis e polémicos de forma original, tornam este filme numa agradável surpresa.


A premissa da história já é por todos conhecida, portanto não me irei perder em pormenores revelando a sinopse. É preferível passar directamente às pertinentes questões que este belíssimo filme de David Fincher aborda de forma profunda e delicada. Essas questões passam pelo poder do tempo, pelo envelhecimento a que todos nós somos sujeitos e principalmente, pela inevitabilidade da morte.
Mas apesar de todas as virtudes técnicas e interpretativas deste filme poderoso, a grande virtude passa realmente pela forma justa e quase meditativa, com que Fincher conta a história da vida do peculiar Benjamin Button. Esse lado quase contemplativo, acaba por justificar uma duração, que alguns consideram excessiva. Mas lá está, o tema deste filme é o tempo e a sua inevitabilidade, e como tal a narrativa completa da vida de um homem, do nascimento à sua morte, acaba por ser plenamente aceitável. E Fincher foge de divagações metafísicas (apesar de elas estarem nas entrelinhas), ancorando o filme na realidade das emoções dos seus personagens. E essa é a magia de Benjamin Button. Um conceito mirabolante, contado de forma realista, emocionante, inteligente e profunda, com um desenlace final inesquécivel . Tal como The Wrestler, um dos grandes injustiçados nos Oscars, devido à histeria da moda, de seu nome Slumdog Millionaire.

Martin Scorsese(The Last Temptation of Christ) - O Cristo humano