







MUNICH
(2005)
de Steven Spielberg
O filme mais profundo, arriscado e desencantado da carreira de Steven Spielberg. Com uma coragem admirável, o realizador mergulha numa questão polémica, perigosa e actual, com o mérito acrescido de focar ambos os lados de forma justa e deixando espaço para o espectador tirar as suas conclusões. Muito mal recebido quer pela comunidade judaica, quer pela árabe, Munique é um thriller de alta voltagem, com ressonâncias de Hitchcock, Pakula e Lumet. Raros são os filmes mainstream actuais, com a coragem ou a vontade de abraçar o cinema político. Munique fá-lo sem concessões mostrando a tragédia, a loucura, a violência e o preço da espiral olho-por-olho. Como nota final, aquele ultimo plano que numa imagem sintetiza toda a mensagem humanista do filme. Sublime!
Obra algo polémica e injustamente ignorada na carreira de Hitchcock, Marnie é um excelente complemento a um dos seus filmes maiores, o inesquécivel Vertigo. Repescando a sua heróina loura de The Birds (Tippi Hedren) e tendo Sean Connery como substituto de James Stweart, Hitchcock assina mais um retrato sobre os seus temas recorrentes: a obsessão sexual, a culpa, o amor, identidades falsas, mentiras, traumas e fixações maternais. Esta história de uma atraente ladra, que é aprisionada por uma das suas “vítimas” num jogo de psicanálise e obsessão, é uma reveladora incursão ao lado mais pessoal do mestre do suspense. Marnie é complexo, pois funciona como thriller, história de amor e drama psico-analítico. E é essa amálgama de géneros contraditórios, que lhe dão um sabor estranho e invulgar. Hitchcock parece mais interessado na dinâmica da relação quase sado-masoquista do seu casal de protagonistas e menos no mistério que serve de motor à história. Os resultados dessa abordagem, apesar de desequilibrados, são bastante satisfatórios, pois a fita funciona em diversos níveis permitindo diversas leituras. Connery nunca foi tão ambíguo quanto aqui. E Hedren brilha num papel torturado e difícil apenas ao alcance de uma grande actriz. Marnie possuí ainda uma das mais belas bandas sonoras do mestre Bernard Herrman e este filme assinalou a sua ultima colaboração com o mestre do suspense. Uma obra a ver por todos os aficionados do grande Hitch.

António-Pedro Vasconcelos regressa com mais uma das suas histórias assumidamente comerciais e com o objectivo único, de chamar espectadores às nossas salas. É um gesto, que apesar do seu mérito, falha no momento crucial deste tipo de projectos. Ou seja, a Bella e o Paparazzo é um filme que se vê com agrado, tem bons diálogos, um ritmo escorreito e é completamente…vazio! A culpa é da história anémica, do desenlace previsível e das soluções fáceis. O filme tem uma boa surpresa chamada Soraia Chaves, que finalmente tem um papel que lhe permite exibir, mais que as suas generosas curvas, um talento dramático até aqui escondido. Os restantes actores vão bem, apesar do excelente Marco Dalmeida, não parecer, nem adequado, nem à vontade neste tipo de papéis românticos. Destacam-se ainda as presenças de Ivo Canelas, Nicolau Breyner e Nuno Markl, que rouba todas as cenas onde entra e tem direito às melhores deixas. APV nunca pretendeu assinar obras herméticas, como Oliveira e César-Monteiro, mas continua a falhar a ponte. A ponte onde o olhar artístico de um cineasta português, consiga ligar-se ao público que consegue levar à sala, oferendo-lhe um filme de conteúdo, compreensível, original e português. O público continua à espera.

Na mouche mr. Cameron! A Kathryn a repetir o feito de Oliver não lembrava a ninguem. Inteiramente merecido!
Com um ritmo frenético a espaços, mas vazio, quer no contéudo quer na forma gasta, este Mission Impossible marca a estreia de J.J. Abraams no mundo do cinema, depois do estrondoso sucesso do seu Lost. Tom Cruise repete o papel do agente secreto Ethan Hunt, acompanho por um elenco luxuoso, onde além de um vilão sub-aproveitado, encarnado por um surpreendente Phillip Seymor Hoffman, se incluem nomes como os de Billy Cudrup, Ving Rhames, Jonathan Ryes Myers e Laurence Fishburne. O problema maior deste filme, parte do guião prevísivel e desinspirado, sendo a película salva a espaços pelo talento de Abrams, especialmente na direcção das cenas de acção. E nesse capítulo, uma nota de mérito para a sequência de resgate onde Ethan luta contra aviões, helícopteros e rockets. Mas MI-III tem clara fraquezas. Em particular a resolução arranjada para solucionar aquele brilhante início. Se a abertura do filme era plena de tensão, violência e desespero, a sua resolução, é cheia de clichés, twists previsíveis e concessões comerciais. No seu geral bem confeccionado, trata-se de um filme que apesar de ter os ingredientes certos, deixa a um sabor a muito pouco e candidato ao filme mais fraco deste franchising.


O que Martin Scorsese consegue fazer com o seu último filme, é mais uma prova da sua enorme mestria (e cinéfilia) cinematográfica. Pegando num guião engenhoso, mas com uma primeira parte banal, Scorsese assina com Shutter Island, um dos seus filmes mais labirínticos e perturbadores. Esta história de uma dupla de detectives que buscam um paciente mental desaparecido de um asilo de loucos, poderia descambar para um daqueles corriqueiros thrillers, onde o mistério e os clichés abundam. Nas mãos do mestre, esta matéria prima é elevada e dirigida para as suas temáticas predilectas. E o que é admirável, é vêr todos os temas da sua carreira lá bem vincados e complementando a narrativa de Shutter Island. A paranóia de Raging Bull e Goodfellas, a loucura de Taxi Driver e The Aviator ou (surpreendentemente) a tragédia sacrificial de Last Temptation Of Christ. Tal como todos os (anti) heróis scorsesianos, o Teddy Daniels assombrosamente encarnado por Di Caprio, é um personagem torturado e assombrado, que deverá percorrer um calvário até a verdade sobre si mesmo sêr-lhe revelada. E sem querer estragar o final, Shutter Island brilha intensamente quando abraça os caminhos do filme de personagem, e menos durante aquela primeira hora onde o sabôr a deja vu não nos larga. Seja como fôr, temos aqui um dos filmes do ano, que infelizmente não estreou a tempo para figurar nos Oscars que aí vêm.