




Este remake de Insomnia, o thriller norueguês datado de 1997, trata-se da segunda obra do britânico Cristopher Nolan, precisamente dois anos após o brilhante Memmento e ainda muito distante dos blockbusters a que mais tarde se iria dedicar. Com um elenco e um production value, muito superior à sua anterior película, Nolan assina um policial seguro e original, mas ao mesmo tempo algo decepcionante. Especialmente se tivermos em conta o brilhantismo que o cineasta tinha revelado na sua fita anterior. Al Pacino em registo de underacting (algo novo para ele) está próximo da perfeição. O seu William Dormmer, é um dos grandes personagens de 2002. Complexo, torturado e trágico, Pacino, brilha com uma intensidade, tão forte como o sol do Alaska, ofuscando um insólito Robin Williams (no seu 1º papel de vilão) e a belissima Hillary Swank. Nolan alem de manobrar com habilidade as nunaces dos seus personagens, é igualmente hábil na gestão de um guião que poderia caír nos sempre traiçoeiros clichés. Nas mãos de Nolan, o enfase é dado ao conflito interior do seu torturado protagonista, potenciado pela invulgar paisagem que o rodeia. Apesar de todos estes pontos fortes, o final é resolvido a martelo (ou a tiro se preferirem), e no fim apesar dos esforços do realizador, ficamos com uma sensação de deja vu. Mesmo assim é um belo filme a descobrir.

Aceitando o desafio, e agradecendo desde já aos blogueiros que escolheram o Grandes Planos para o Prémio Dardos, aqui segue a lista dos 15 blogues que sigo diariamente. O desafio fica passado a eles.
Essas falhas começam num claro desequilíbrio de tom, entre a primeira e a segunda parte. E se nessa primeira parte, Cameron pretendia mostrar-nos algum desenvolvimento dos personagens, o seu objectivo é algo falhado, pois elas não são mais que estereótipos básicos. No entanto James Cameron é muito bom, na sua atenção obsessiva aos detalhes da direcção artística, no prodígio técnico que é a recriação do Titanic, e no tom de desespero e morte, que consegue implantar na ultima hora e meia de filme. Tal como nos seus filmes anteriores, o tema é o final de um mundo, causado pela arrogância tecnológica do homem. Mas o que Titanic tem em relação aos Terminators, Aliens, ou o The Abyss, é um sopro trágico e claustrofóbico, que deixa o espectador aterrorizado e comovido, com o destino dos tripulantes do infame navio.
E depois temos Kate Winslet, belíssima, forte e tocante, conseguindo dar carne e alma, a uma personagem que no papel sofria de muitas “armadilhas melodramáticas”. A sua Rose, não destoa absolutamente nada, ao lado de outras heroínas do cinema de Cameron, tais como Sarah Connor e Ellen Ripley. Kate tem um dos papéis da sua vida. E se relativamente à parte tecnica, Titanic é um prodígio, artisticamente é um deleite para os sentidos. Seja na fotografia evocatória de Russel Carpenter, ou na montagem e nos morphings de Cameron e Conrad Buff, assim como na romântica e melancólica banda sonora, que o sempre prodigioso James Horner, compôs para o filme(muita da força emocional da fita, passa pela sua música).
Além do mais, há que valorizar o risco que cineasta correu com este filme, que na altura foi o mais caro da história. Muito tiveram que engolir as suas previsões de desgraça, ao constatar o sucesso incomprável deste belo espectáculo.Titanic é ainda hoje, o filme com mais box-office na história do cinema. E isso deve-se a um sonhador visionário, chamado James Cameron, que apesar de tudo, assinou um filme inesquécivel. Que volte em breve com o seu Avatar.



Este Jericho Mile é um retrato duro e violento, contra-balançado por momento líricos belíssimos. O filme conta a história do prisioneiro Murphy, que encarcerado para o resto da vida (por ter morto o seu pai), tenta qualificar-se para os Jogos Olímpicos, lutando contra o sistema penal, assim como contra vários gangs da prisão. As corridas de Murphy (Peter Strauss nunca esteve tão convincente e intenso como aqui) ao som de Sympathy For The Devil, têm um carácter quase transcendente, e revelam de forma sublime, o esforço e a integridade do seu torturado personagem. Além de Peter Strauss, temos boas respresentações de Brian Dennehy e Geofrey Lewis, e de uma vasta gama de coloridos secundários, que reforçam o realismo, uma vez que se tratam de presos reais. Rodado integralmente na prisão de Folsom, esta foi a obra que chamou a atenção do mundo do cinema, para um realizador, que se viria a revelar, um dos mais talentosos cineastas do final do sec. XX.
Neste filme a integridade artística de Michael Mann está bem evidente, assim como a sua coragem de levar o realismo a um extremo nunca visto. Isso combinado com o seu óbvio talento para a escrita e para uma direcção de actores perfeita, fazem deste belíssimo Jericho Mile, o cartão de visita ideal, para a obra de um cineasta essencial.

Em 1989, Portugal foi surpreendido com a notícia do feito de um cineasta até então desconhecido. Esse cineasta tinha arrecadado o Leão de Prata do Festival de Veneza (feito inédito e irrepetível), com o seu filme, Recordações da Casa Amarela. Desde então, não mais o cinema português esqueceu João César Monteiro.
Primeira parte, das desventuras de João de Deus (Monteiro em auto-retrato?), foi e ainda é uma película de ruptura. Nunca até então se tinha visto algo parecido no cinema português (e mundial já agora). Um filme tão disposto a abraçar o sagrado e o profano, o sublime e o kitsch, Shubert e Quim Barreiros. Para além disso, é um filme ferozmente crítico. A forma como João César Monteiro se lança à pequenez e à hipocrisia dos brandos costumes à portuguesa, é iconoclasta e originalmente provocatória. O seu João de Deus, é o anti-establishment por excelência (não é por acaso que chega a fazer-se passar por militar, com o intuito de “marchar sobre São Bento”). Monteiro dispara em várias direcções, mas sempre com um humor irónico, blasfemo e por vezes desarmante, fazendo-nos render à sua personagem. E depois aqueles planos geniais, que mostram que nunca houve composições tão belas no cinema português. Isso, e uma utilização invulgar da mise-en-scéne, demonstram um realizador no topo da sua forma, cheio de conceitos e ideias nunca vistas.
Um grande filme e uma excelente forma de iniciar a descoberta da obra de um génio (louco?), que voltaria à carga com o senhor João de Deus, nos superiores A Comédia de Deus e As Bodas de Deus.

Rodado após a bomba que foi Mean Streets, este documentário com sabor a home movie (no bom sentido do termo), assinala a tentativa de Scorsese, em mergulhar nas suas origens familiares, abordando por arrasto, as origens de toda a comunidade ítalo-americana. Essa abordagem é directa, bem humorada e muito, muito pessoal. Os seus pais, Catherine (lembram-se da mãe de Joe Pesci em Goodfellas?) e Charles Scorsese, são os anfitriões de um animado jantar, em que partilham com o seu filho (e connosco) receitas italiana e as mais variadas e mirabolantes histórias familiares, enquanto demonstram uma enorme capacidade para prender o ouvido do espectador. Aliás, há uma altura em que o pai de Scorsese justifica a sua enorme capacidade enquanto contador de histórias, com facto de em tempos passados, não existirem nem tv’s nem rádios para entreter, e essa tarefa era dada a uma pessoa da família, que narraria as histórias mais mirabolantes. Olhando para os dois senhores, percebe-se claramente que o seu talentoso filho teve a quem saír, em espírito e em talento como storyteller. Mais que um documentário, este é um trabalho de exposição e de amor filial extremamente honesto e sem filtros. Só é de lamentar que o virtuosismo cinematográfico de Scorsese, esteja completamente apagado, deixando-nos 50 minutos com histórias contadas. Mas mesmo assim, os intervenientes nunca são aborrecidos. E seja como fôr, não é todos os dias que assistimos, a uma exposição tão honesta, ao universo familiar de um dos maiores realizadores, da história do cinema.




Após o semi-flop que foi Star Trek – The Motion Picture, os executivos da Paramount viram-se com uma batata quente nas mãos. Por um lado, os resultados comerciais do 1º filme, deixaram muito a desejar. Por outro, todo uma legião de fãs (os trekies) exigiam um novo filme á altura da série. E numa jogada audaz e arriscada, afastaram Gene Rodenbery das rédeas da produção (que tinha sido um dos problemas na anterior película), entregando os comandos a Nicholas Meyer (realização) e Harve Bennet (produção), por metade do orçamento do 1º filme. O resultado não podia ser melhor. Star Trek – The Wrath of Kahn, é o mais amado e conseguido filme, de toda a saga.
Esse sucesso deve-se em grande parte, á mão segura e à abordagem insólita de Meyer e Bennet. Repescando o vilão de um dos episódios mais amados pelos trekies, fazem a ponte com todo um passado que estava para trás, deixando as pretenções metafísicas do 1º filme. E o que temos aqui é um belíssimo entretenimento, que tem tanto de deslumbre, assim como doses maciças de diversão e emoção.
Kirk (William Shatner na sua melhor performance) e Spock (Leonard Nimoy inimitável) nunca estiveram tão bem. Cada qual com um conflito interior muito credível, em particular Kirk, que tem de enfrentar a decadencia e algo que sempre se recusou a olhar de frente: a morte. E depois temos Kahn (Ricardo Montalblan), um vilão “biger than life” obsessivo na sua sede de vingança, com um gosto particular por citações de Moby Dick. Um pormenor que é tudo menos inocente, pois Kahn funciona como uma espécie de capitão Ahab intergalático. Aliás, todo o filme tem um sabor aos velhos clássicos de aventuras marítimas, muito bem fundidas com a vastidão do espaço. Factor que realça esse sabor, é a magnífica partitura de James Horner, que poderia facilmente ser a banda sonora de um Captain Blood ou um Sea Hawk.
O tom do filme, a edição vertiginosa, a história muitíssimo bem contada e a abordagem cinéfila de Nicholas Meyer, elevam este filme a patamares elevadíssimos. E depois temos aquele final semi-aberto, que deixa o espectador ansioso por novas aventuras. Um dos meus favoritos, que está para a saga Star Trek, como Empire Strikes Back para Star Wars: simplesmente o melhor da série.





Cada vez gosto mais de Nicholas Ray. Não há volta a dar. A cada filme que vejo, mais me convenço que o homem era mesmo um grandíssimo cineasta. Em fase de descoberta da sua obra, eis que revejo Bigger Than Life. Um filme que tinha visto na minha infancia, numa matiné de domingo na rtp. Na altura o filme impressionou-me pelo medo que me causou. Nunca tinha visto nada assim, pois não haviam nem monstros, nem aliens, nem nada de paranormal. O medo, provinha de dentro da familia, na figura do habitual protector, o pai (outro retrato semelhante é o de Jack Nicholson em The Shinning). Agora passado uns aninhos, já consigo perceber o que mexeu tanto comigo na altura em que vi esta obra-prima.
Sufocante e negro, nunca a revolta e a desintegração de um homem, foi tão sublime e perturbante como neste subversivo Bigger Than Life de Nicholas Ray. O realizador, famoso pelos seus "rebeldes sem causa", tem aqui mais um brilhante exercício de cinema total, em que exprime as suas ideias de rebeldia, camuflado pelo sub-género do melodrama. A inicio parece que estamos em terrenos de Douglas Sirk, com a famila feliz, com os seus bens materiais e estabilidade financeira, onde aparentemente tudo são rosas. Mas cedo nos apercebemos, que estamos em terrenos de Ray, que tem nesta obra um exercicio de explosão e crítica à conformidade e a falsa felicidade, de um certo "american way of life" da altura.
O veículo para essa explosão, é o torturado personagem de Mason, que se apresenta a inicio, completamente esmagado pela sociedade em que se insere. Dá a impressão que a revolta de Mason, não advem das drogas que toma, mas sim de uma frustrações e tensões mais ou menos óbvias. Seja a relação com a sua submissa mulher (Barbara Rush), a pressão de manter um american way of life que o obriga a manter dois empregos (com o desconhecimento da mulher) ou um filho obviamente estereotipado quase acéfalo. James Mason, num retrato insuperável de demência e não-conformidade, é inesquécivel no papel de um homem que devido à sua "habituação" a uma droga experimental (na altura), chamada cortisona, explode contra o puritanismo e o politicamente correcto da América dos anos 50.
Brilhante Ray, no uso inspirado do Scope´, na composição de planos com tanto de belo como de expressionista (a famosa e ameaçadora sombra "bigger than life" de Mason), num uso de côr deslumbrante e na encenação de cenas aparentemente mundanas, mas que transmitem uma tensão em surdina quase insuportável de tão sufocante. Nunca um copo de leite foi tão perturbante, nem mesmo em Notorious. Ou então que dizer das cenas finais em que no cumulo da sua loucura, Mason, emulando a história de Abraão pega num par de tesouras e numa bíblia, disposto a chacinar o seu filho. A sua mulher ao confrontá-lo dizendo-lhe que de acordo com a bíblia, Deus salvou o filho de Abrão, a resposta é aterradora: "god was wrong". Isto sim é terror. Um terror sublime, que funciona a vários níveis e onde estranhamente simpatizamos com a revolta do protagonista. Ou será antagonista ?




“When the legend becomes fact, print the legend”. Esta frase célebre e milhentas vezes citada, vem quase sempre à baila, cada vez que se fala do cinema de John Ford. E foi em The Man Who Shot Liberty Valance, que pela primeira vez a ouvimos. Mais que uma citação, esta frase é uma súmula da atitude do grande cineasta. Ford, sempre preferiu a visão lírica e romântica do velho Oeste. Neste filme, além dessas característas, surge também um amargo desencanto, pela passagem do tempo que tudo muda. De certa forma, pode-se comprovar que esta obra maior, foi uma das influencias, para o sublime Unforgiven. Também aqui a imprensa tem um papel fulcral, na criação de mitos e lendas que pouca correspondência terão com a realidade dos factos.
Então quem será o Homem Que Matou Liberty Valance? Terá sido o civilizado advogado Ransom Stodard (sublime James Stewart), que apesar da sua inabalável crença na Ordem e na Lei, é forçado a assumir uma posição de violência que o força a um duelo final? Ou o outro homem, um ícone do Oeste por excelência, Tom Doniphon (John Wayne num dos seus papeis mais complexos e doridos), homem de princípios igualmente fortes, que acredita na resolução de problemas através da lei das armas. A resposta é dada num flashback, dentro de um flashback (Ford era apesar do classicismo um cineasta ousado). Ao nos ser revelada a verdade, toda a ultima meia-hora ganha uma ressonância trágica e emocional, como poucas vezes se viu.
E apesar de James Stewart, Edmond O’ Brien ( hilariante como o jornalista alcoólico), Vera Milles, ou Lee Marvin (num papel diabólico e cruel), este filme pertence ao Duke. O seu Tom Doniphon, é o Oeste. E tal como ele perdeu a mulher amada, para Stweart, também o Oeste desaparece numa das sequencias mais doridas e explosivas do cinema de Ford. A sequencia em que Wayne incendeia a sua casa, símbolo de um amor impossível, numa clara manifestação de o final de uma era, é simplesmente vibrante e tocante. O homem Que matou Liberty Valence, ao fazê-lo, matou também o velho Oeste e torna-se anacrónico. Sem lugar num mundo civilizado. Após isso, apenas há lugar para a amargura, tristeza e morte. Não é à toa que o filme começa e acaba com um velório. O velório de Tom Doniphon / John Wayne. Ou será o velório do Western/John Ford?
Uma obra brilhante.
