Alexander Payne, revela-se a cada filme que faz, um dos grandes cineastas especialistas na comédia dramática. É neste momento a par de Wes Anderson ou Paul Thomas Anderson, a grande certeza da nova vaga do cinema norte-americano. Os personagens de Payne, são homens de meia-idade que ultrapassados e esmagados por um tempo perdido, têm que descobrir em si mesmos uma forma de retomar a vida e ultrupassar o fracasso(About Schmidt e Election). É esse o caso de Miles (brilhante Giamati) que após um traumático divorcio e uma carreira de escritor que teima em não arrancar, viaja com o seu amigo prestes a casar (Hayden Church), numa odisseia de jantares, mulheres e bons vinhos. O guião de Payne é genial, transmitindo a amargura e a sensibilidade destes personagens tão especiais, utilizando por exemplo de forma particularmente astuta as metáforas sobre vinhos, que Miles tanto aprecia, para nos revelar o interior dos seus personagens (a analogia do Pinot Noir). E depois temos Paul Giamati, o mais improvável dos heróis românticos, que consegue tornar o seu Miles num personagem pelo qual nutrimos uma enorme simpatia e que transmite-nos momentos tocantes sem nunca cair em sentimentalismos. Com personagens memoráveis, um guião brilhante e uma realização segura, Sideways é um dos grandes filmes da colheita de 2004, para degustar e saborear vezes sem conta, tal como um bom vinho.




Tropa de Elite
Antes que o Diabo Saiba que Morreste
Nome de Código: Cloverfield
The Lovebirds










Vencedor surpresa do ultimo Festival de Berlim, Tropa de Elite é mais uma prova da imensa vitalidade do cinema brasileiro actual. Controversa e polémica, esta magnífica obra foi acusada injustamente de fascista, uma vez que o retrato que faz dos BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais) não os condena e observa com justeza as suas acções. A polémica foi tal, que o seu realizador, José Padilha, teve de vir a público defender-se: “Acreditar que eu apoio as práticas do BOPE por ter feito Tropa de Elite faz tanto sentido quanto acusar Francis Ford Coppola de ligações com a Máfia por ter dirigido O Padrinho.” E polémicas à parte, Tropa de Elite tem a grande virtude de recusar facilitismos ou maniqueísmos. Tanto criminosos como policias, caem numa espiral de violência sem limite e ambos os lados são condenáveis. A cena final é uma das mais brutais e nilistas do cinema dos últimos anos e nela esta a chave para a ambiguidade da “mensagem” de Padilha. Ou seja, numa guerra não se fazem prisioneiros, e é de uma guerra que se trata, quando o tema é o combate à criminalidade brasileira. Filmado com uma estética realista e crua, Tropa de Elite tem também uma memória cinéfila, pois está recheado de referências filmicas, com um especial destaque para Full Metal Jacket de Kubrick. De louvar ainda o trabalho intenso de Wagner Moura, que compõe um capitão do BOPE torturado e complexo, numa interpretação verdadeiramente arrepiante. Depois do sucesso estrondoso de A Cidade De Deus, Tropa de Elite é mais uma prova da excelência e pertinência do cinema brasileiro e não me admirava que também fosse nomeado para os Oscars. Um dos grandes filmes do ano que passou e um exemplo que o cinema português poderia seguir. 




Desilusão, é a palavra que me vem constantemente à cabeça sempre que penso neste W. Infelizmente, Oliver Stone apesar de continuar com um bom ritmo narrativo, perde-se na vida incompreendida que é a da George W. Bush. No seu excesso de zelo para fazer um retrato justo do homem, o cineasta omite e ignora acontecimentos fulcrais para compreender um dos mais mal amados presidentes da história dos EUA. Nunca percebemos quem é este básico homem que é retratado. Talvez fosse a intenção do realizador apresentar-nos o retrato de um coitado que apesar de um imenso complexo de inferioridade e de uma grande dose de ingenuidade, consegue virar a sua vida do avesso e conquistar o seu lugar na cadeira do homem mais poderoso do mundo. O problema, é que essa transição não é clara e é algo forçada dentro do contexto do filme. No seu excesso de subtileza (algo que fica mal a Stone) e recurso a constantes elipses, não é nos é perceptível como a personagem de W. conseguiu descobrir a força interior para assumir-se como o lider de uma nação. Destaque para a interpretação de Josh Brollin que apesar das limitações de um guião anémico, consegue transmitir carisma e presença para compôr um personagem limitado no papel. A haver alguma inspiração, ela surge tardiamente numa magnífica cena final, onde um confuso W. não consegue apanhar aquela bola no ar. Um pouco como o realizador, que com este filme dá o seu segundo tiro ao lado depois do anémico WTC.

