sexta-feira, maio 02, 2008

Reds (1981)

de Warren Beatty



Reds é antes de mais, um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes, alguma vez feitos em Hollywood. A sua feitura apenas foi possível devido à persistência e ao star-power de uma das suas maiores estrelas, Warren Beatty de seu nome. O financiamento para a realização de um épico sobre um líder comunista, autor de um dos livros mais fieis aos acontecimentos da Revolução Russa e o único americano sepultado no Kremlin, revelou-se uma tarefa quase impossivel. Especialmente tendo em conta o fervor anti-comunista, que reinava na altura numa América em plena Guerra Fria. Mas a tenacidade de Beatty levou a melhor, conseguindo o apoio da Paramount, e assegurando um controlo criativo total, interpretando, realizando, escrevendo e produzindo o filme. Após dois anos de rodagem e montagem, o filme estreava finalmente em 81. Imediatamente afirmou-se como um grande sucesso nas bilheteiras, e um dos filmes mais nomeados na história dos Oscars (13 nomeações, sendo 4 para Beatty, que igualou assim Orson Welles). Ou seja Reds torna-se um triunfo artístico e comercial sem precedentes na carreira do seu autor.

Abordando as ilusões e desilusões inerentes às utopias, a história de amôr de John Reed (Beatty) pela ideologia comunista, assim como pela mulher da sua vida, Louise Bryant, é contada de forma original, complexa e muitíssimo eficaz. A narrativa gira em torno da relação entre Reed e Bryant, dois intelectuais radicais, que com uma relação no mínimo tumultuosa (com infedelidades de parte a parte), reencontram o amor no mais surpreendente dos cenários, em plena Revolução Russa. A partír daí, Reed e Bryant regressam ao Estados Unidos, tentando espalhar a mensagem aquilo que viram na Russia, na esperança de assim agitar, e eventualmente revolucionar a sociedade americana. Reed acaba mesmo por abandonar o jornalismo e converte-se num dos primeiros líderes do partido comunista americano. Mas essa conversão irá fazê-lo regressar à Russia, deixando Louise para trás.

Vários são os momentos em que Reed, procura equilibrar o colectivo com o pessoal. A sua ideologia e o afecto. Mas esse equilibrio revela-se impossivel num estado totalitário. E esse é uma das maiores virtudes desta obra apaixonante: apesar de Beatty sentir uma óbvia simpatia para com a utopia comunista, há uma altura que o seu protagonista é forçado a constatar que o sonho se tornou um pesadelo. Um exemplo marcante, é o discurso que Reed faz para uma plateia de radicais muçulmanos, onde vê as suas palavras traduzidas de “guerra de classes” para “guerra santa” criando assim uma histeria eufórica na sua audiencia. Mais tarde é lhe dito que o seu discurso foi alterado, por não ser propagandistico o suficiente. Além de actualissima, essa cena revela toda a manipulação que o indivíduo sonhadôr, pode sofrer num colectivo que se rege de forma totalitária. Ou seja Beatty dá uma no cravo e outra na ferradura. E muito bem! Nunca negando a complexidade e a veracidade do tema que aborda, perservando a integridade da obra. E que dizêr daquele reencontro final na estação, em que uma ansiosa Louise Bryant, que após regressar à Rússia clandestinamente, finalmente encontra um destroçado Reed, criando um dos momentos mais comoventes a que assisti num filme. Além do mais, a história de amôr entre os protagonistas é palpável e nunca é abordada de forma sentimental, o que só lhe dá mais força.

E depois Beatty, tem outro momento inspirado. Convocando para este épico intimista, aquelas deliciosas “testemunhas” idosas. Escritores, intelectuais, militares, que conheceram e privaram de perto, com os verdadeiros John Reed e Loise Bryant. As suas intervenções ao longo do filme, narrando as suas experiencias conjuntas, são de uma candura, verdade e humor, simplesmente desarmantes Esta técnica documental, reforça a autenticidade de Reds, e dá uma ressonância singular às imagens que vemos. E claro que falar de Reds, é falar daquele cast portentoso onde brilham a grande altura Maureen Stapelton (com um oscar mais que merecido), Jerry Kozinski, Gene Hackman e Jack Nicholson (num surpreendente underacting). E as imagens que Vitorio Storaro criou? Que dizer daquelas composições inesquéciveis, ou do tratamento cromático, que nos dá a sensação de vêr um filme a preto e branco? O seu oscar é também inteiramente justo.

Tudo neste filme se conjuga de forma perfeita. Arte, entretenimento, política, amor, História. Reds é a prova que Warren Beatty por detrás daquela fama de galã de Hollywood, é antes demais, um cineasta de um talento e coragem imensas. Um dos grandes grandes filmes da minha vida.

quinta-feira, maio 01, 2008

Earthlings

Este documentário é revoltante, chocante e faz pensar no caminho que a humanidade está a levar. Mais que cinema, isto é VERDADE! Muitas vezes não pensamos ou não queremos pensar no caminho que aquele bife, ou aquele peixinho levaram até ao nossos pratos. Pois é, este excelente documentário narrado por Joaquim Phoenix e com a música de Moby, revela esse caminho e sua relação com com a nossa sociedade de consumo. É um caminho de imagens ultra violentas e chocantes, revelando o nível de desumanidade a que chegámos.

Votação Cineasta Português - Resultados

João César Monteiro

quarta-feira, abril 30, 2008

Nomeados Cinema Globos de Ouro 2007


MELHOR FILME:
A Outra Margem, de Luís Filipe Rocha
Belle Toujours, de Manoel de Oliveira
Call Girl, de António-Pedro Vasconcelos
O Capacete Dourado, de Jorge Cramez

MELHOR ACTOR:
Eduardo Frazão, em O Capacete Dourado
Filipe Duarte, em A Outra Margem
Ivo Canelas, Call Girl e Mistério da Estrada de Sintra
Nicolau Breyner, em Corrupção

MELHOR ACTRIZ:
Ana Moreira, O Capacete Dourado
Margarida Vila-Nova, em Corrupção
Maria d'Aires, em A Outra Margem
Soraia Chaves, em Call Girl



Os meus favoritos:

Melhor Filme: Capacete Dourado
Apesar dos seus defeitos narrativos, o podêr dos seus momentos de puro cinema (e cinéfilia), destacam este filme da concorrência.

Melhor Actor: Ivo Canelas/Mistério da Estrada de Sintra
O melhor actor da sua geração, numa composição brilhante! O seu Eça emana carisma e talento de forma soberba!

Melhor Actriz: Ana Moreira / Capacete Dourado
Apesar do seu papel sêr algo "curto", todas as cenas em que entra pertencem-lhe por inteiro.

Amor ao primeiro som...

O album português mais surpreendente do ano! Uma belissíma voz com canções que fazem lembrar Aimee Mann. Golden Era é o primeiro album de Rita Redshoes, uma companheira de canções da banda de David Fonseca. A sua belíssima voz desperta sentimentos, sonhos e nostalgias. Possivelmente o melhor album do ano...

Deixo-vos aqui uma amostra da sua magia...


terça-feira, abril 29, 2008

The Brave One (2007)

de Neil Jordan


Num regresso aos universos de Taxi Driver, Jodie Foster brilha a grande altura, neste complexo thriller de Neil Jordan (Crying Game e The End Of The Affair). Jodie interpreta uma traumatizada radialista, que marcada por um acto de violência extrema, acaba por assumir um papel de justiceira, numa espécie de catarsis emocional.

As consequências, são o diluir das fronteiras, entre “bons” e “maus”.Terrence Howard, no papel do detective que tal como Jodie, está farto de vêr os criminosos fugirem à Justiça, é fulcral para perceber a personagem de Foster. O irlandês Neil Jordan, revela um talento inesperado na direcção de um blockbuster de acção, imprimindo-lhe um carácter bastante intimista. O realizador filma com a sua habital elegância técnica e mestria narrativa. A haver pontos negativos, serão algumas cenas mais inverosímeis, ou a sensação que se poderia ir mais longe num tema tão delicado como este. Mas quando o filme parecia começar a descambar lá para o final, acontece um brilhante volte face, que foge aos clichés deste género de fitas, e apresenta-nos a única conclusão possivel de forma surpreendente.

Foster e Howard fazem uma dupla com uma química arrebatadora e Jordan assina um belíssimo filme, com um tema sensível e polémico. Pena não ter ido mais longe.

segunda-feira, abril 28, 2008

THE END - Parte 1

É por estas e por outras, que John Ford é um dos maiores mestres da 7ª arte! E aquela porta a fechar, é de um simbolismo sublime. Um dos finais mais brilhantes na história do cinema.

domingo, abril 27, 2008

Filmes da Minha Vida - IX


Obra explosiva de Michael Cimino. Com Robert de Niro num dos seus grandes papéis, e Christopher Walken, inesquecivel na pele do perturbado Nick (papel que lhe valeu o Oscar). Cimino aplica um ritmo deliberadamente lento, mas adequadissimo, a esta história sobre a perda das ilusões e da destruição da inocência. Balançando entre sequências ora líricas (as caçadas nas montanhas) ora violentíssimas (o capitulo no Vietname), The Deer Hunter foi na altura da sua estreia considerado de racista, devido ao retrato que faz dos vietnamitas. Se essa acusação é verdadeira ou não, é algo de somenos importância, tal é a intensidade das cenas e o impacto emocional causado no espectador. A musica, a fotografia e a edição são tambem sublimes. Um dos filmes maiores da minha época favorita de Hollywood, os anos 70.

sábado, abril 26, 2008

Bond Song nº20

Em 1995 Tina Turner e Eric Serra recuperaram a mistica perdida das canções de 007. O resultado foi esta homage ao legado de John Barry com um toque actual e apropriado em qualquer revivalismo. Mediano mas catchy....

quinta-feira, abril 24, 2008

A estreia do Mês!

Infelizmente apenas numa sala:
Lisboa UCI Cinemas - El Corte Inglés
Sala 5 / 14h20, 16h45, 19h15, 21h50, 00h20

quarta-feira, abril 23, 2008

Bond Song nº21

A menos querida... Die Antother Day! Péssima Madonna e sem David Arnold para a ajudar! Uma bond-song completamente descaracterizada e sem personalidade. Muito mau.

"I've abandoned my child"

Depois de Boogie Nights e depois de Magnolia, o conflito de pais e filhos, numa das cenas mais intensas do filme do ano! Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis os grandes senhores do cinema do sec XXI...

domingo, abril 20, 2008

O estado do Benfica ...

...por João César Monteiro.
Há coisas que não mudam mesmo!

quinta-feira, abril 17, 2008

quarta-feira, abril 16, 2008

terça-feira, abril 15, 2008

"Reles e ridículo"

Esta crítica (pag6) é muito infeliz! Rechada de ataques não fundamentados e inverdades. Utiliza expressões como "E essa coisa vai do mais reles ao mais ridículo", ou, "Durante quantos anos se tentou combater este tipo de cinema português, tentando evitar o filme pessoal egoísta dos que só sabem mendigar subsídios ao ministério".

Reles e rídiculo? Se a crítica se refere à estética utilizada, talvez na sua próxima análise a um Lynch ou a um Von Trier, se lembre de utilizar os mesmo adjectivos.
E já agora, eu gosto de filmes pessoais e egoístas! Mas não creio que esse seja o caso deste filme. Além do mais, a obra em questão foi feita sem necessitar de "mendigar subsídios ao ministério"!

Uma sugestão: que tal para a próxima, investigar um pouco mais, antes de se começar a bater no que é nosso.

O filme em questão é o belíssimo The Lovebirds.

Uma das mortes mais "belas" do cinema

Agora que Charlton Heston partiu, deixo-vos aqui o momento alto de um dos seus melhores (e mais obscuros) filmes: O apocalítico e assustadôr Soylent Green de 1973. Comovente e sublime...



* As lágrimas de Heston são verdadeiras, uma vez que o seu amigo de longa data Edward G. Robinson, encontrava-se já muito doente, acabando por falecer 9 dias depois desta cena.

domingo, abril 13, 2008

Mr. Brooks (2007)

de Bruce A. Evans

A carreira de Kevin Costner, é um caso que sempre me intrigou. A sua ascenção meteórica com obras únicas e marcantes como The Untouchables, Revenge, JFK ou The Perfect World, valeu-lhe comparações com James Stweart ou Gary Cooper. Além do mais revelava um enorme talento na realização, com o lírico e belíssimo Dances With Wolves (pelo qual recebeu dois Oscars). Mas de repente, Costner eclipsou-se. A partir de Waterworld, iniciou uma espiral em queda livre, com desastres comerciais e artísticos uns após os outros. Bons (ou maus) exemplos são, For The Love of The Game, The Postman, ou 300 Milles to Graceland, tudo maus demais para sêr verdade. Costner, apercebendo-se disso, tentou dar a volta a essa situação.

Este Mr. Brooks, é uma dessas tentativas em que Costner procura recuperar a credibilidade perdida. Numa clara aposta de desconstruir (ou destruir) a sua imagem de bom rapaz, Costner assume a interpretação de um personagem complexo e arriscado. Justamente um serial Killer com dupla personalidade. Mas os resultados deixam muito a desejar. Costner apesar do seu óbvio star power, não é adequado neste tipo de papéis (em Perfect World foi muito muito melhor). O seu Mr. Brooks, nunca assusta, e sente-se o pouco à vontade de Costner, numa personagem tão psicótica e negra como esta. A sua inadequação, torna-se quase embaraçosa, cada vez que William Hurt (o seu alter ego), surge no ecrã e rouba-lhe descaradamente, todas as cenas em que surge.

O casting de Demi Moore no papel de uma polícia, é algo estranho e sente-se que o único motivo para tal, é a necessidade de grandes estrelas para chamar o público. As culpas da fraqueza deste projecto, podem também ser repartidas, por um guião demasiado esquematizado e algo trapalhão, e que se perde em narrativas paralelas que em nada fazem avançar a história e apenas distraiem e quebram o tom da fita. Bruce A. Evans com uma realização certinha, bem que se esforça para levar o filme a bom porto, mas o guião (da sua co-autoria) não dá para muito mais. Um factor interessante e original, é a relação de Mr. Brooks com a sua filha, que possivelmente, herdou do seu pai, mais do que este esperava.

Mas em suma, Mr. Brooks, é um filme com alguns bons momentos, mas que no seu todo, transmite uma sensação de desperdício ( especialmente de bons actores ) e que ainda não foi aquele regresso às boas graças do público, que Kevin Costner tanto esperava.

Under Capricorn (1949)

de Alfred Hitchcock

Esta história ambientada na Austrália do século XIX, aborda temas como amor, adultério e culpa, ou seja as obcessões recorrentes na obra de Hitchcock. Mas apesar disso, trata-se de uma obra atípica na carreira do mestre, uma vez que se trata de um filme de época. Nas palavras do seu realizador, este foi um filme que apenas aceitou fazer, devido ao seu deslumbramento pela maior estrela feminina da altura, a deslumbrante Ingrid Bergman.

Filmado com algumas das técnicas utilizadas em Rope (os planos sequência), Under Capricorn, falha no seu todo. E essa falha deve-se a um guião anémico, que apenas faz engrenar a história, após passar-mos a primeira hora de filme. Até lá, Hitch delicia-se (e delicia-nos) com a sua actriz principal, e intriga-nos com o tom de mistério que envolve a relação de Bergman com o muito seguro Joseph Cotten. Mas todo esse jogo, sabe a muito pouco.

Apesar de sêr uma obra menor na carreira do mestre do suspense, Under Capricorn, vale o visionamento. Nem que seja pela destreza técnica e narrativa do seu realizador, assim como pelo carisma e talento dos seus actores principais.

sábado, abril 12, 2008

Hitchcock & Truffaut - A entrevista

Para ouvirem a entrevista que deu origem a um dos mais célebres livros sobre cinema, basta clicarem na imagem. São 25 ficheiros de pura magia cinematográfica, que consistem numa análise a toda a carreira de Hitchcock, conduzida de forma inspirada por Truffaut. Enjoy!

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