terça-feira, outubro 23, 2007

Cinemateca em Marcha


JUVENTUDE EM MARCHA de Pedro Costa

com Alberto Barros “Lento”, Antonio Semedo “Nhurro”, Ventura, Vanda Duarte
Portugal/França/Suíça, 2006 - 155 min / legendado em português

"Pedro Costa volta à comunidade do Bairro das Fontaínhas depois de OSSOS e NO QUARTO DA VANDA: “Em JUVENTUDE EM MARCHA, o bairro está já destruído e segui um dos seus residentes, Ventura. É um filme sobre um homem que carrega um passado, um homem com fantasmas. O filme também lida com a relação filial (…). É uma história de fidelidade ao nascimento de um bairro, e Ventura contribui muito para esta história de fidelidade”. "

Sexta-feira (dia 26) 21:30 Sala Dr. Félix Ribeiro
Com a presença de Pedro Costa

domingo, outubro 21, 2007

Crimson Tide (1995)

de Tony Scott


No início dos anos 90, o regime soviético acaba por cair nas mãos de um louco de seu nome Radchenko (inspirado em Zironofsky), que ameaça o mundo com o seu armamento nuclear. O submarino americano Alabama, comandado pelo veterano Ramsey (Gene Hackman) , parte em direcção à Rússia, numa missão preventiva. O novo imediato Hunter ( Denzel Washington), acaba por entrar em rota de colisão com Ramsey, devido a uma mensagem muito dúbia, que poderá levar o mundo a uma guerra nuclear.

Com produção de Jerry Bruckheimer e realizado com mão segura por Tony Scott , Crimson Tide é dos melhores filmes do britânico até à data. A gestão da tensão é feita de forma eficiente e em crescendo. Os habituais exageros estílisticos de Scott, estão quase ausentes, reforçando assim a importância dos personagens e aumentando a claustrofobia do espaço do submarino.

Servido por um argumento, muito bem trabalhado, que consegue dar-nos a entender perfeitamente as motivações tanto de Ramsey, como de Hunter, sendo perfeitamente plausível a escalada de conflito entre os dois homens. O argumentista Michael Schiffer, nunca recorre a saídas fáceis, e opta pelo desenvolvimento dos personagens, em detrimento da pirotecnia de artifícios, a que este tipo de história poderia levar. Como nota curisosa, é de salientar que Tarantino trabalhou no guião a convite de Scott, para reforçar alguns diálogos, como facilmente se percebe na cena do Silver Surfer.

Apesar do leque de actores fortíssimo, onde se incluem Jason Robards, George Dzundza, Viggo Mortenssen ou James Gandolfini (muito antes dos Sopranos) , Crimson Tide, aposta tudo e bem, nos seus principais: uns enormes Gene Hackman e Denzel Washington, que dão uma verdadeira lição da arte de bem representar, apesar dos seus estilos diferentes. São impressionantes as cenas de confronto entre os dois gigantes, tal é a intensidade, a pura força e carisma que ambos emanam, sendo quanto a mim as grandes mais valias deste belíssimo filme.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Brava Dança

Documentário nacional que aborda em detalhe, a carreira dos míticos Heróis do Mar. Premiado no DocLisboa.
A não perder! Hoje às 23.30 na TV2

quinta-feira, outubro 18, 2007

Trainspotting (1996)

de Danny Boyle

Baseado no livro escândalo de Irvine Welsh, Trainspotting é um retrato de uma juventude escocesa, perdida no crime, na droga, na doença e na violência, mas com um toque de humor negro Q.B que faz toda a diferença para a necessária identificação com os personagens. Filme culto dos anos 90, Trainspotting é a prova da vitalidade do cinema europeu dessa altura, assim como a afirmação do talento de Danny Boyle (que até aí tinha apenas assinado o excelente Shallow Grave).

Recheado de uma galeria de figurões extremamente coloridos e divertidos. Eles são, o protagonista Mark Renton (Ewan Mcgregor), com a sua filosofia de escolher cavalo em vez de escolher a vida. Simon “Sick Boy” (Johnny Lee Miller) o grande teórico de Sean Connery e engatão incorrigível. Spud (Ewen Bremmer, o drogado de bom coração com uma grande apetência para defecar em camas estranhas e para se encher de speeds nas entrevistas de emprego. E finalmente o psicótico e paranóico “Franco” Begbie (Robert Carlyle), perigoso, irrascível e sempre na vertigem da violência. Todos os actores, estão à altura dos papéis, conseguindo dar o toque humano essencial, na composição destas bizarras personagens. Outro ponto fortíssimo, é a adaptação que o argumentista John Hodge fez do livro de Welsh. Hodge combina personagens e situações do livro, mantendo-se sempre fiel ao espírito da obra original. É de salientar que o livro tinha uma estrutura não linear algo complexa, que Hodge escolheu contar de forma mais tradicional e eficaz.

E para final o melhor: a virtuosa realização de Danny Boyle. O realizador parece ter sido possuído pelo mesmo espírito febril dos seus personagens. Personagens esses, que nunca em momento algum são julgados pela câmara de Boyle. A sua realização nunca recorre a saídas fáceis e prefere manter-se do lado dos seus heróis(?) até às ultimas consequências (incluíndo um delírio numa cena de antologia na pior casa de banho da Escócia). A encenação arrojada e destemida, o uso de grandes angulares que distorcem e alienam os personagens, uma montagem frenética e inovadora, a manipulação de sons, conjugada com a pujante banda sonora (Underworld, Iggy Pop, Lou Reed), revelam aqui o melhor momento da carreira de Danny Boyle.

Um dos melhores filmes dos anos 90, e obrigatório para (quase) todos.

sexta-feira, outubro 12, 2007

Isto não é uma crítica


Mas sim um desbafo de motivos, para a TREMENDA DESILUSÃO que apanhei com The Fountain:

Devo de ir ser bombardeado mas cá vai:

1-Argumento muito mal desenvolvido e personagens estereotipadas
2-Deconexão total entre as três histórias (especialmente a do sec.XVI e sec.XXI)
3-Uma realização académica e repetitiva (aqueles POV picados)de Aranofsky
4-Apagamento de todos os secundários para dar lugar ao par Jackman/Weiz
5- Um final que tem tanto de supostamente místico, como de piroso a tresandar a incenso New Age (aquela pose de meditação espacial desafia o rídiculo)

Filme falhado e desiquilibrado? Parece-me que sim e que nem com revisionamentos melhorará muito.

Quem quiser um filme verdadeiramente romântico com uma pulsão de morte, sugiro-lhe The English Patient

quinta-feira, outubro 11, 2007

Votação Cineasta Europeu - Resultados

E o grande vencedor da sondagem cineasta europeu, é este grande senhor!


LARS VON TRIER (7 votos 31%)

2º - Win Wenders (6 votos 26%)

3º - Nanni Moretti (5 votos 21 %)

4º - Mike Leigh (3 votos 13%)

5º - Michael Hanneke (2 votos 8%)

terça-feira, outubro 09, 2007

The Candy Color Clown from Mr. David Lynch

Bizarro! Perturbador! Musical! Belo! Pura Poesia Lynchiana.

quinta-feira, outubro 04, 2007

Sabiam que ...


Em Pulp Fiction (1994) o segmento da overdose de Mia Wallace, e o seu ressuscitar causado por uma injecção de adrenalina directamente no seu coração, é uma transcrição palavra por palavra de uma história contada em American Boy (1978) um documentário realizado por Martin Scorsese.

quarta-feira, outubro 03, 2007

Hilariante !!!


Jesus Quintana: You ready to be fucked, man? I see you rolled your way into the semis. Dios mio, man. Liam and me, we're gonna fuck you up.
The Dude: Yeah, well, you know, that's just, like, your opinion, man.
Jesus Quintana: Let me tell you something, pendejo. You pull any of your crazy shit with us, you flash a piece out on the lanes, I'll take it away from you, stick it up your ass and pull the fucking trigger 'til it goes "click."
The Dude: Jesus.
Jesus Quintana: You said it, man. Nobody fucks with the Jesus.
Walter Sobchak: Eight-year-olds, Dude.
in The Big Lebowski (1998)

terça-feira, outubro 02, 2007

Estalou a bronca em Corrupção

"O realizador João Botelho recusa-se a assinar a ficha técnica do filme «Corrupção», porque viu o filme alterado pelo produtor, avança hoje a SIC.
«Corrupção», protagonizado por Margarida Vila-Nova e Nicolau Breyner e baseado no livro «Eu, Carolina», de Carolina Salgado, vai estrear no dia 1 de Novembro numa versão do produtor, Alexandre Valente.
Segundo a SIC, o produtor do filme, Alexandre Valente, não terá concordado com a montagem de João Botelho e decidiu cortar algumas cenas, bem como alterar partes do filme, nomeadamente a banda sonora.
Como resultado, o realizador e a argumentista, Leonor Pinhão, recusaram-se a assinar a ficha técnica.
É a primeira vez na história do cinema português que um realizador não assina um filme.
Conta a SIC que o caso está agora nas mãos dos advogados. "

in IOL cinema

segunda-feira, outubro 01, 2007

Por mais um punhado de dolares
















ANTES (TAXI DRIVER)
DEPOIS (STARDUST)

domingo, setembro 30, 2007

Batman Begins (2006)

de Christopher Nolan


Se há capítulo que esteve omisso, seja na obra-prima de Tim Burton, seja na BD original de Bob Kane, foi a origem do Homem-Morcego. A transição do rapazinho que assiste ao assassinato dos seus pais, até se tornar o vingador implacável que é Batman, nunca nos tinha sido revelada, em qualquer um dos outros quatro(!) filmes. Pois bem é essa origem que este filme dirigido por Christopher Nolan (Memento, The Prestige) aborda de forma muito satisfatória e engenhosa.

Este regresso do homem-morcego mais famoso, do mundo pela mão do talentoso Nolan, é um belo entretenimento. Neste caso, o tom gótico de Burton, ou o carnaval trash de Schumacher, são abandonados, para dar lugar a uma abordagem, mais assente em pressupostos realistas e verosímeis. Servido pela melhor interpretação até à data, do super-herói, responsabilidade de Christhian Bale, que se revela cada vez mais, um actor com grande apetência para personagens complexos e sinistros, assim como para as cenas que requeiram uma maior exigência física.

A mão firme de Nolan, leva o filme a bom porto. Conseguindo um eficaz equilíbrio entre o desenvolvimento psicológico de Batman e as obrigatórias cenas de acção. Se há algo a apontar neste capítulo, será provavelmente um certo automatismo para filmar essas mesmas cenas de acção, que se revelam por vezes algo confusas, tal é a velocidade do corte assim como da escolha de grandes planos para supostamente aumentar a intensidade da cena. Mas aparte disso, Nolan revela-se um exímio director de actores, que além de Bale, tem um cast à sua disposição verdadeiramente impressionante: Liam Neeson, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Ken Watanabe, Cilian Murphy, Rutger Hauer(um regresso à 1ª divisão), Tom Wilkinson, Katie Holmes. Enfim, um elenco verdadeiramente luxuoso e que curiosamente funciona e complementa-se na perfeição.

Destaque ainda para a união sui generis de dois dos maiores compositores de Hollyood, Hans Zimmer e James Newton Howard, que assinam uma banda sonora, impressiva e pujante que não fica nada atrás do clássico composto por Dany Elfman em 1989.

quarta-feira, setembro 26, 2007

Arrepiante de Tão Belo que é

Digam-me lá se esta sequência não é das mais belas de sempre, da história do cinema ...

domingo, setembro 23, 2007

O Capacete Dourado (2007)

de Jorge Cramez


O primeiro filme de Jorge Cramez, é uma obra vagamente inspirada em Romeu e Julieta, e num caso verídico passado no Norte de Portugal. A história gira a volta de um casal que em plena descoberta do seu amor, tem que lidar com a forte oposição do pai dela, que é professor na escola dele.

Antes de mais, o filme a nível narrativo é praticamente nulo. A história quando finalmente começa a engrenar, acaba abruptamente e deixa o espectador pendurado. Mas afinal o que foi aquilo? Um história sobre o principio e a inocência do amor adolescente, mas completamente desprovida de conflitos. Apesar de uma riqueza pictórica como nunca se viu no cinema português, essa poesia visual torna-se por vezes, vazia e oca, tal é a falta de emoção que percorre todo o filme. Mais um caso típico do cinema português, em que o guião é preterido em favor de um conjunto de belas (neste caso belíssimas) imagens, conseguindo com isso, alienar praticamente o espectador menos “esclarecido”, ou seja , o espectador normal.

Destaque para a realização de Cramez, que recheia o filme com referências cinéfilas, (por vezes de forma demasiado óbvia), tão variadas como 2001 de Kubrick, Rebel Whithout a Cause de Ray, ou A Clockwork Orange , também de Kubrick. Nota-se a paixão de fazer cinema neste filme algo desiquilibrado, que alterna os momentos inócuos e algo maçadores, com outros verdadeiramente sublimes e poéticos. Assim de repente vem-me à cabeça, aquele arrebatador plano final, ao som de Camané e dos Humanos, num momento de verdadeira poesia cinematográfica como nunca antes se viu no cinema português.

Só é pena o guião preguiçoso, pois Capacete Dourado poderia ser um grande filme, caso prestásse mais atenção à narrativa da história que quer contar.

sexta-feira, setembro 21, 2007

American Psycho (2000)

de Mary Harron


Patrick Bateman é um jovem yuppie de Wall Street, com muito dinheiro, gosto por fatos caros e uma obcessão pela perfeição física.. Os seus dias no escritório são preenchidos a fazer palavras cruzadas, a ouvir os ultimos êxitos da pop dos 80’s, a combinar almoços nos restaurantes in da cidade, em que se perde em conversas superficiais e frívolas com os seus igualmente supérfulos e frívolos colegas executivos. Mas é durante a noite que a verdadeira natureza monstruosa de Patrick vem ao de cima. Das prostitutas que contrata para os seus jogos doentios, aos pobres vagabundos da cidade que despreza, até às próprias autoridades policias, todos os que se cruzam com Patrick têm como fim uma morte violenta e sangrenta.

Baseado no polémico livro de Breat Eston Ellis, American Psycho, foi igualmente rodeado por muita celeuma na altura da estreia, devido ao seu forte contéudo gráfico e as cenas de sexo quase explícito. Ambientado na América dos anos 80, este filme funciona a vários níveis. É uma sátira mordaz à sociedade de consumo e superficial, é um filme de terror e por fim um mistério policial que tem um fim inconclusivo e amoral. Bateman personifica o lado mais doentio e perverso da américa regueniana, desprovida de moral e de empatia pelos outros e onde apenas conta a ganância e a ambição de cada um. Com uma estrutura narrativa que nos pôe desde o início a acompanhar o doentio personagem principal, o filme nunca tenta (e bem) explicar as motivações psicológicas que fazem Bateman agir como age. A aposta da realizadora Mary Harron, está no sub entendido e revela muitíssimo no que não é dito pelos personagens. O diálogo funciona quase como uma antítese da natureza dos intervenientes.
E claro, falar de American Psycho é falar da interpretação explosiva e magnética de um Christian Bale pré-Batman, que tem no seu Bateman (curioso o nome) um dos seus melhores papéis até à data. O filme pertence-lhe por inteiro. E a forma assustadora como revela a sua total ausência de sentimentos e natureza doentia, indica-nos que estamos na presença de um grande actor. Podia destacar vários momentos brilhantes. Mas um particularmente, cómico, tenso e chocante, está numa sequência onde Bateman faz uma das suas entusiasmadas disertações, sobre as maravilhas da música pop (neste caso os Huey Lewis and The News), de machado na mão e prestes a desmembrar um Jared Leto completamente embriagado. Sem dúvida, um dos grandes vilões do cinema recente.

Em suma, um filme, cruel, chocante e perturbador, no retrato satírico que faz a uma América numa crise muito profunda. Não é aconselhável aos mais impressionáveis, mas é uma magnífica e poderosa obra a (re)descobrir.

terça-feira, setembro 18, 2007

Bye, bye Premiere


A notícia completa encontra-se aqui.

Será que deixa mesmo saudades?

Deixem-me desde já dizer, que comprava a Premiere desde a edição nº1, no já longinquo Novembro de 1999. Na altura foi uma verdadeira pedrada no charco na imprensa cinematográfica portuguesa, que por acaso nem sequer existia! Desde o saudoso Se7e, que não havia uma publicação assim vocacionada para a 7ª arte. Notava-se nos textos, o empenho, o entusiasmo e a vontade de escrever sobre cinema em Portugal. Bons tempos esses.

Mas ultimamente algo corria mal na Premiere. Facto é, que não compro um número há mais de 4 meses. Sim os blogs e a net têm alguma culpa nesse capítulo, mas há outras razões. E uma delas prende-se com a linha editorial que a publicação estava a seguir. Uma escrita politicamente correcta, automática, previsível e uma abordagem superficial nas críticas e nas entrevistas, estava a preencher cada vez mais as suas páginas. As excepções dessa tendência, eram o sempre mordaz Crisweel e o grande João Lopes com as suas críticas/pensamentos que se destacavam do marasmo geral da revista.

É verdade que os motivos do encerramento da revista em Portugal, prendem-se com a política empresarial dos novos patrões da casa mãe americana (ah a maravilhosa globalização), que já tinham acabado com a edição norte-americana. Esse foi o indício que as restantes Premieres do mundo inteiro teriam os dias contados. Mas também é verdade que a edição em revista estava muito fraquinha.

Salve-se o Blog! Que espero que não acabe, pois bate aos pontos a sua moribunda irmã mais velha.

segunda-feira, setembro 17, 2007

Justiça

Tal como a votação feita aqui no Grandes Planos previu, o grande vencedor da noite dos Emmys foram os:
















Outros vencedores:

SÉRIE COMÉDIA : 30 Rock
ACTOR EM DRAMA: James Spader (Boston Legal)
ACTOR EM COMÉDIA: Ricky Gervais ("Extras")
ACTRIZ EM SÉRIE DE DRAMA Sally Field ("Brothers & Sisters")
ACTRIZ EM SÉRIE DE COMÉDIA : America Ferrera ("Ugly Betty")

sábado, setembro 15, 2007

Hilariante!

A arte da sedução, por Nanni Moretti em Bianca.

sexta-feira, setembro 14, 2007

quinta-feira, setembro 13, 2007

La Messa è Finita (1985)

de Nanni Moretti

Don Giulio é um jovem padre que regressa à sua terra natal, após um período de exilio voluntário, numas das várias ilhas do mediterrâneo (um prenúncio das ilhas de Caro Diario). Nesse regresso é confrontado com várias situações, que vão desde o aborto que a sua irmã pretende fazer, ao abandono da família por parte do seu pai para ir viver com uma miuda 30 anos mais nova, ao isolamento e recusa de viver em sociedade a que um antigo companheiro lutador anti-fascista se resignou, a um antigo camarada que se tornou terrorista e passou das teorias aos actos, acabando preso durante 7 anos. Todas estas situações deixam Don Giulio desgostoso, indignado e à beira de um ataque de nervos.

Deixem-me dizer que parece-me que este é o filme mais semelhante ao magnífico O Quarto do Filho. Semelhante na (quase) ausência de humor, e no tom pessimista que atravessa o filme. Moretti compõe talvez o seu personagem mais complexo até á data. Don Giulio é um poço de contradições, neuroses, fixações, desejos, frustrações e indignações. A violência do seu carácter que vem muitas vezes à tona, alterna entre o perturbante e o patético, mas revela toneladas da revolta interior, que o genial Moretti compõe de forma sublime. Mas ao contrário de Bianca, a violência acaba por não ter consequencias trágicas, sendo nesse aspecto mais optimista. Este é para mim o papel da vida de Moretti, uma vez que mostra que além de Moretti-o-realizador, existe um Moretti-o-actor, que se revela um verdadeiro poço de subtileza e sensibilidade.

Um salto qualitativo em relação a Bianca, é o tratamento que é dado ao personagens secundários. Mais que instrumentos para revelar a natureza perturbada de Don Giulio, eles são o retrato de uma geração à deriva, que fracassou nos seus objectivos sonhadores e lutas inglórias, das quais apenas sobrou uma amargura, que os afasta da sociedade e em último caso da vida. Todos os actores secundário estão perfeitos.

No campo da realização o trabalho de Moretti é como sempre irrepreensível (grande prémio da realização em Berlim). Moretti além de uma impecável direcção de actores e um cuidado narrativo meticuloso, manipula com perfeição os elementos sonoros e musicais, que acabam por complementar o interior dos personagens. Sequência ilustradora disso, é o momento em que o padre aumenta o volume de um rádio até ao máximo, abafando por completo o diálogo da sua irmã, que o confrontava com a decadência familiar da sua família. O escapismo musical tão em evidência em Caro Diario, Abril e La Stanza del Figlio, é aqui aplicado de uma forma ainda mais sublime.

Mas La Messa è Finita não é apenas um filme sobre a decadência de valores morais e ideológicos. Acima de tudo é sobre a ausência de afectos e a solidão (tema recorrente em Moretti) que estão na génese do comportamento bizarro do jovem padre. Há várias cenas que demonstram isso, mas é destacar o final particularmente tocante, em que no meio de um casamento que um derrotado Giulio celebra, os convidados começam a dançar na igreja e que provocam finalmente um sorriso esperançoso, na sua face até aí sisuda. Um final luminoso num filme desencantado e que faz pensar e especialmente, sentir.

Mais uma obra-prima. Grazie Nanni!

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