"I don´t think a good director can make a good film with a bad screenplay, but a bad director can deliver an acceptable film if he has a good screenplay."
Oliver Stone
Não é fácil escrever sobre Elephant, o grande vencedor do festival de Cannes 2003. Não é fácil porque não existe propriamente uma história, mas sim uma colecção de momentos mundanos na vida de vários personagens ao longo de um dia, que vão lenta e impiedosamente caminhando lentamente para um final brutal. Não é fácil porque a originalidade por detrás do olhar do realizador é simplesmente sublime. Não é fácil, porque Elephant, faz pensar e sentir de uma forma avassaladora.
A grande mais valia deste filme perturbante, é a câmara poética, e ao mesmo tempo distante, de Gus Van Sant. Em Elephant, a imagem tem o seu tempo respira e contempla, criando a ilusão do real. Mas esse tempo por vezes, é distorcido a belo prazer pelo cineasta, com constantes flashforwards que trocam as voltas ao especatdor, mas que nunca o confundem, e sim surpreendem pela audácia. Uma palavra também para os pontos de vista dos personagens, que são fulcrais à construção da tensão, esbarrando uns nos outros e ao mesmo tempo complementando-se.
Passa por este grande filme, uma lufada de ar fresco estético como há muito não sentia num filme. Seja pelos virtuosos (e arrrebatadores) planos sequencia, pelo uso inspiradíssimo do foque/desfoque ou pela magnífica fotografia. É de salientar que Gus Van Sant não utilizou um guião, mas sim um outline para que os não-actores podessem ter a liberdade de aplicar as suas próprias personnas nos personagens.
Elephant...como disse atrás, não é fácil escrever sobre este filme, portanto quem não viu, que veja, quem viu, reveja, pois de certeza que esta será uma das obras-primas do cinema do século XXI.
4 pescadores. Um barco encalhado. Um regresso difícil às margens do Tejo. Um grande filme português!
Pena que o nosso cinema não opte mais vezes por este realismo incondicional, que Tarde Demais apresenta. Quer a nivel da mise-en-scéne, quer nas representações, poderosas e dramáticas do magnífico quarteto de actores, quer num guião rigoroso e "despido" de artifícios dramáticos. Realismo é a palavra chave sempre presente. O resultado imediato no espectador, é ser arrastado para a situação dramática que os pescadores em questão viveram, surgindo uma imediata e intensa identificação com eles. Nunca no cinema português vi assim um filme, com esta serena intensidade, uma pulsão de morte e trágica ironia (os planos da Expo e da Ponte Vasco da Gama) , fornecida pela magnífica fotografia de Mário Castanheira.
Um desafio ganho, e de que maneira, por José Nascimento nesta experiencia sui generis no nosso cinema. Pena não haverem mais filmes portugueses assim.
Findada a marotona Spike Lee da semana passada, aqui vão uns pensamentos sobre os filmes visionados.
Do The Right Thing (1988)
Sem dúvida a obra maxima de Lee. Narra o dia num bairro de Nova Iorque, onde as tensões raciais, escalam até proporções chocantes num final inesquecível. O segredo deste filme, é a justiça da abordagem de Lee, uma vez que percebemos claramente as motivações de todos os personagens. Tenso, divertido, inteligente, selvagem, realista, pertinente, trágico: uma obra-prima. Talvez o melhor filme feito sobre o racismo e todas as consequências que este causa na sociedade. Fight The Power!
Malcolm X (1992)
Biopic sobre um dos grandes líderes negros dos EUA. Denzel Washington no papel da sua vida e Spike Lee no filme da sua vida. A perspectiva de Lee, não tomba na abordagem referencial, e consegue mostrar as contradições de Malcolm X. Sem a alta voltagem de Do The Right Thing, mas mesmo assim com grandes momentos (destaque para a sequência que antecede o assassinato de Malcolm X) .
Summer of Sam (1999)
Um dos poucos filmes “brancos” de Spike Lee ( a par de A Última Hora (2003) e de O Infiltrado (2006) ), que segue um grupo de personagens ítalo-americanas no dia mais quente de Nova Iorque (tal como em Do The Right Thing), e onde a paranóia sobe tão alto quanto a temperatura, graça a um assassino psicopata à solta. Lee interessa-se mais pelos personagens e as suas relações/tensões, que propriamente no assassino à solta. Excelente ritmo, banda sonora e realização que se conjugam, em mais uma explosão, num final surpreendente. A par de Fight Club foi para mim, o filme do ano de 99
DO THE RIGHT THING - insultos