
Reds é antes de mais, um dos mais ambiciosos, arriscados e improváveis filmes, alguma vez feitos em Hollywood. A sua feitura apenas foi possível devido à persistência e ao star-power de uma das suas maiores estrelas, Warren Beatty de seu nome. O financiamento para a realização de um épico sobre um líder comunista, autor de um dos livros mais fieis aos acontecimentos da Revolução Russa e o único americano sepultado no Kremlin, revelou-se uma tarefa quase impossivel. Especialmente tendo em conta o fervor anti-comunista, que reinava na altura numa América em plena Guerra Fria. Mas a tenacidade de Beatty levou a melhor, conseguindo o apoio da Paramount, e assegurando um controlo criativo total, interpretando, realizando, escrevendo e produzindo o filme. Após dois anos de rodagem e montagem, o filme estreava finalmente em 81. Imediatamente afirmou-se como um grande sucesso nas bilheteiras, e um dos filmes mais nomeados na história dos Oscars (13 nomeações, sendo 4 para Beatty, que igualou assim Orson Welles). Ou seja Reds torna-se um triunfo artístico e comercial sem precedentes na carreira do seu autor.
Abordando as ilusões e desilusões inerentes às utopias, a história de amôr de John Reed (Beatty) pela ideologia comunista, assim como pela mulher da sua vida, Louise Bryant, é contada de forma original, complexa e muitíssimo eficaz. A narrativa gira em torno da relação entre Reed e Bryant, dois intelectuais radicais, que com uma relação no mínimo tumultuosa (com infedelidades de parte a parte), reencontram o amor no mais surpreendente dos cenários, em plena Revolução Russa. A partír daí, Reed e Bryant regressam ao Estados Unidos, tentando espalhar a mensagem aquilo que viram na Russia, na esperança de assim agitar, e eventualmente revolucionar a sociedade americana. Reed acaba mesmo por abandonar o jornalismo e converte-se num dos primeiros líderes do partido comunista americano. Mas essa conversão irá fazê-lo regressar à Russia, deixando Louise para trás.
Vários são os momentos em que Reed, procura equilibrar o colectivo com o pessoal. A sua ideologia e o afecto. Mas esse equilibrio revela-se impossivel num estado totalitário. E esse é uma das maiores virtudes desta obra apaixonante: apesar de Beatty sentir uma óbvia simpatia para com a utopia comunista, há uma altura que o seu protagonista é forçado a constatar que o sonho se tornou um pesadelo. Um exemplo marcante, é o discurso que Reed faz para uma plateia de radicais muçulmanos, onde vê as suas palavras traduzidas de “guerra de classes” para “guerra santa” criando assim uma histeria eufórica na sua audiencia. Mais tarde é lhe dito que o seu discurso foi alterado, por não ser propagandistico o suficiente. Além de actualissima, essa cena revela toda a manipulação que o indivíduo sonhadôr, pode sofrer num colectivo que se rege de forma totalitária. Ou seja Beatty dá uma no cravo e outra na ferradura. E muito bem! Nunca negando a complexidade e a veracidade do tema que aborda, perservando a integridade da obra. E que dizêr daquele reencontro final na estação, em que uma ansiosa Louise Bryant, que após regressar à Rússia clandestinamente, finalmente encontra um destroçado Reed, criando um dos momentos mais comoventes a que assisti num filme. Além do mais, a história de amôr entre os protagonistas é palpável e nunca é abordada de forma sentimental, o que só lhe dá mais força.

Tudo neste filme se conjuga de forma perfeita. Arte, entretenimento, política, amor, História. Reds é a prova que Warren Beatty por detrás daquela fama de galã de Hollywood, é antes demais, um cineasta de um talento e coragem imensas. Um dos grandes grandes filmes da minha vida.

Este documentário 

O album português mais surpreendente do ano! Uma belissíma voz com canções que fazem lembrar Aimee Mann. Golden Era é o primeiro album de Rita Redshoes, uma companheira de canções da banda de David Fonseca. A sua belíssima voz desperta sentimentos, sonhos e nostalgias. Possivelmente o melhor album do ano... 










Esta história ambientada na Austrália do século XIX, aborda temas como amor, adultério e culpa, ou seja as obcessões recorrentes na obra de Hitchcock. Mas apesar disso, trata-se de uma obra atípica na carreira do mestre, uma vez que se trata de um filme de época. Nas palavras do seu realizador, este foi um filme que apenas aceitou fazer, devido ao seu deslumbramento pela maior estrela feminina da altura, a deslumbrante Ingrid Bergman. 



por Sam Peckinpah










A narrativa em mosaico com multíplas personagens, muito ao jeito de Magnólia, ou Short Cuts, funciona em pleno. Especialmente em três segmentos. O primeiro é o tocante episódio de um cineasta que faz o seu último filme (Fernando Lopes numa evocação cinéfila ao seu Belarmino). O segundo é a cruel história de um taxista que comete um acto chocante, para no final atingir uma inesperada redenção. E no terceiro assistimos à terna e por vezes hilariante (genial a cena do chouriço) relação entre o americano (grande Michael Imperioli) e a empregada de mesa de Alfama (uma surpreendente Ana Padrão). As outras história paralelas não me parecem funcionar tão bem, apesar do segmento protagonizado por Joaquim De Almeida, ser verdadeiramente hilariante. E apesar de algumas insuficiências na montagem, o filme possuiu um espírito tão honesto e despretensioso, que só apetece revê-lo mais uma vez.
Nº2 TAXI DRIVER
Nº3 HEAT

Quando o tio Charlie (um ambíguo Joseph Cotten) decide visitar a família, a sua sobrinha (Theresa Wright) também chamada Charlie, é a única a desconfiar que o seu tio esconde um segredo que poderá incluir vários assassinatos. Mas será mesmo o tio Charlie um assassino, ou a sua sobrinha estará apenas com uma grande dose de paranóia? Shadow of Doubt gira em torno do tema preferido de Hitchcock, a suspeita. Tal como eu Rear Window, ou em Rope, aqui temos uma protagonista que suspeita de algo terrível, com a mais valia dramática, de o suspeito ser o seu simpático e (aparentemente) inofensivo tio.
Outro ponto curioso, é o local onde decorre a história. Uma pacata cidade do interior. Hitch, ao situar o clima de suspeita nos habitantes desse ambiente, parece sugerir que o mal não conhece fronteiras, pois até em zonas perfeitas e idílicas, o mal pode surgir a qualquer momento e assumir a forma de um terrível pesadelo. E isto tudo 43 anos antes de Blue Velvet. Um filme a descobrir por todos os fãs do mestre do suspense. 





