


E como brinde aqui vai uma das cenas mais belas do cinema de Cimino.








Um grupo do FBI liderado por um oscarizado Jamie Foxx, chega a Riade com o objectivo de descobrir e capturar os autores de um sangrento atentado que custou a vida de centenas de civis americanos e assim como sauditas. Pelo caminho o grupo americano é acompanhado por um coronel da polícia local (Ashraf Barhom), que os ajudará a encontrar a célula terrorista.
É com esta premissa algo simplista, que o actor tornado realizador Peter Berg, assina esta produção do brilhante Michael Mann. Para que conste, Mann esteve numa fase inicial para realizar este projecto, decidindo mais tarde realizar Miami Vice e entregar os comandos do filme a Peter Berg. Berg tem um estilo “televisivo” de câmara ao ombro que sinceramente não parece funcionar em The Kingdom. O realizador revela uma certa inaptidão para filmar as cenas dramáticas. Isso deve-se ao seu estilo aleatório e sem critério, onde a escala de planos é feita ao calhas e de forma muito atrapalhada. A juntar a esse problema, temos uma montagem igualmente em piloto automático. The Kingdom consegue ter mais cortes por segundo que qualquer filme do trolha Michael Bay. A edição às três pancadas cria um efeito de confusão quando aqui se pretendia dinamismo e tensão.

Mas the Kingdom é um mau filme? Não, não é. E isso deve-se ao excelente último terço de filme. Aí sim, a montagem e o estilo televisivo tão intromissores até aí, revelam-se surpreendentemente adequados, pois o filme entra em alta velocidade a partir daí. Um óbvio destaque à sequência na auto-estrada, em que o realismo, acção e espectacularidade são sinceramente de cortar a respiração. Pena foi Berg, não se ter apercebido que apesar de um filme ter um estilo, isso não implica filmar uma conversa da mesma forma que filma um tiroteio. É a velha questão da forma e do contéudo.
No capítulo dos actores, estes não comprometem, mas também não deslumbram. Isso é mais notório nos casos de Jennifer Garner e Chris Cooper, que defendem como podem as suas personagens subdesenvolvidas. Jamie Foox e Ashraf Barhom (os protagonistas), destacam-se pela química que conseguem atingir, e pela credibilidade das suas actuações.
Em suma, The Kingdom é um filme desequilibrado e prejudicado por uma primeira metade servida por uma realização e edição trapalhonas. Salvando-se na segunda parte em que essa realização acerta o seu rumo e nos presenteia com algumas das mais fulgurantes sequências de acção dos últimos anos. Sinceramente fiquei com a sensação de se ter perdido a oportunidade de se fazer um grande filme.
Uma nota ainda para o brilhante final, que sintetiza na perfeição, toda a ambiguidade moral que está inerente à natureza de qualquer guerra.


Esta película pertinente e actual, marca o regresso de Paul Haggis à realização, após os oscars e o sucesso de Crash. Tommy Lee Jones num registo dorido e em subtil underacting, tem um forte papel no personagem do ex-militar que procura descobrir o que aconteceu ao seu filho recem chegado do Iraque. Durante a sua investigação, irá ser auxiliado por uma civil, interpretada por Charlize Theron. Os dois irão descobrir uma verdade inesperada e assustadora que irá pôr em causa todas as suas convicções.
A inicio, In The Valley of Elah, parece situar-se em terrenos semelhantes ao magnífico Missing (o execelente thriller político assinado em 82 por Costa-Gavras). Más após a primeira parte, já sabemos o que aconteceu ao militar desaparecido. A questão torna-se descobrir o que causou aquela tragédia. E é nesse processo de descoberta, que se encontra a riqueza deste filme. Se de início, há insinuações de um possível “cover-up” por parte dos militares, o inteligentíssimo guião de Paul Haggis, acaba por renegar esse lugar-comum e começa a trocar as voltas ao espectador, habituado aos clichés típicos neste género de filme. Haggis encontra-se muito mais interessado numa humanização (ou desumanização) dos seus personagens. O mistério que realmente lhe interessa, é descobrir o porquê das consequências que as guerras têm nos seus intervenientes. Esse é o verdadeiro mistério, deste filme algo surpreendente.

A fotografia de Roger Deakins (este ano com duas nomeações) valoriza bastante o trabalho de Haggis, com composições originais e eficazes, que reforçam o tom de justeza da narrativa. Haggis dirige com mão segura os belíssimos actores ao seu dispor. A haver reticicencias nesse capítulo, elas cairiam no papel algo superficial de Charlize Theron, que peca por ser um pouco sub-desenvolvido. Mas no geral não é nada que prejudique esta inteligente longa-metragem com tons anti-belicistas, que acaba por levantar mais perguntas, que respostas.
Em suma In The Valley of Elah vem comprovar o talento imenso de dois senhores: o primeiro de seu nome Paul Haggis como um dos mais talentosos e originais guionistas de Hollywood. O segundo de seu nome Tommy Lee Jones, comprova o porquê de sêr simplesmente um dos maiores actores da actualidade.


Em 1987, Oliver Stone, carregado com o prestígio alcançado com o sucesso e os Oscars de Platoon, passou das selvas do Vietname, para as selvas urbanas da alta finança de Wall Street. Nas palavras do realizador, essa foi a continuação natural de um antigo guião seu, o já mítico Scarface. Se nesse clássico o sub-texto da narrativa era impulsionado pelo consumismo implacável e desenfreado do início dos anos 80, em Wall Street a crítica torna-se mais acutilante e de certa forma realista. Aqui os gangsters dão lugar aos iupies da alta finança, sedentos de poder financeiro e desprovidos de valores éticos e morais. Essa filosofia é sintetizada de forma brilhante no célebre discurso proferido pelo personagem de Michael Douglas: “greed is good”.
No casting, Stone é brilhante como sempre. Resgatando de novo o seu alter ego da altura, o “desaparecido” Charlie Sheen, como o idealista Bud Fox, que lentamente se deixa corromper pelo maquiavélico Gordon Gekko. Gekko é interpretado por Douglas, com um sentido de timing e uma aura implacável que tornam este personagem um dos grandes vilões do cinema. Douglas ganharia um merecido Oscar com o seu papel. Outra jogada de casting brilhante, é a escolha do sempre seguro Martin Sheen, para o papel do íntegro pai de Fox, nem mais nem menos que o seu pai na vida real.

Apesar de não ser fã dos seus ultimos filmes, é admirável a sabedoria das suas palavras e a sua lucidez nesta excelente entrevista.
“You can't snort a line of coke off a woman’s ass and not wonder about her hopes and dreams, it's not gentlemanly.”
Hank Moody
Hank Moody é um escritor em plena crise: com "writers block" (que nas suas palavras é algo que não dá muito jeito) , alcoólico, sarcástico e viciado em sexo. A sua vida gira em torno de encontros sexuais, com mulheres fáceis e perturbadas que encontra em bares, stands de automóveis ou livrarias. Mas apesar desse lado depravado, há algo muito mais profundo em Hank, que funciona como catalizador para este comportamento: as suas recorrentes tentativas de regresso para a sua ex-mulher que o abandonou e está prestes a casar com outro homem. A filha adolescente de Hank funciona como único pólo de equilíbrio, na sua depravada existência.
Está achada uma das melhores séries de 2007. Com um humor políticamente incorrecto e recheada de sexo, alcoól e palavrões, esta série mesmo assim contem uma inesperada e tocante profundidade. David Duchovny no papel da sua vida (que lhe valeu um Globo de Ouro) está surpreendente na sua composição de escritor frustrado e desiludido com o rumo que a sua vida levou. Quem o viu como Mulder nos X-Files, terá uma valente surpresa com a sua magoada composição de Hank Moody.

Aproveito, e em jeito de homenagem, deixo aqui um dos finais mais tristes da história do cinema. O olhar sofrido deste grande actor, transmite toda a dôr e desgosto do seu personagem, de forma, sublime. So long Heath...

A encenação e virtuosismo visual, que com movimentos de câmara precisos e enquadramentos únicos, consegue criar um enorme clima de suspense ( a cena da criada a arrumar a mesa), assim como escapar à limitação do espaço, criando cinema e não teatro filmado. O que é admirável na forma como Hitch filma, é a sua capacidade para virar o jogo, tornando o espectador cumplíce do que se está a passar em todos os momentos, ficando os personagens muitas vezes para trás. Nesse capítulo, o realizador dava cartas como nínguem.
Além do virtuosismo técnico, há o tom deliciosamente cómico e macabro que caracteriza os melhores filmes do mestre. A forma como os dois assassinos jogam com a situação que criaram e a maneira como Hitch filma essa situação, faz com que personagens e realizador, partilhem do mesmo gozo de estar um passo à frente do jogo. As interpretações são todas sólidas, destando-se um seguro James Stewart (a sua 1ª de muitas colaborações com Hitch) , que no final leva uma grande lição de vida (ou será de morte?) e um maquiavélico John Dahll, sempre com tiradas de um humor negro inspiradíssimo. De salientar também a magnífica galeria de personagens secundários, que acabam por humanizar e contextualizar o personagem que se encontra morto na arca
Em suma, Rope é um filme pura e simplesmente brilhante! Sendo provavelmente aquele mais experimental e formalmente ousado, na obra desse grande génio, a quem tantos cineastas devem (e cinéfilos já agora), de seu nome Alfred Hitchcock.

Um total de 106 (!!!) críticos de cinema de publicações prestigiadas como a «Film Comment», «New Yorker», «Variety» e «The New York Times» participou na iniciativa promovida, pelo segundo ano consecutivo, pela revista online Indiewire.
A pérola na filmografia de Spielberg. A par do recente Munique, é o seu filme mais realista, pertinente e pessoal. Aquando da sua estreia vi-o pelo menos 3 vezes em sala. As interpretações são únicas: o magnetismo assombroso de Liam Neeson e a malovolência que Ralph Fiennes emana. A fotografia é um achado: a primeira colaboração entre o cineasta e o brilhante Janus Kaminski, transmite toda a melancolia e tristeza que a história conta. A montagem de Michael Kahan é original e francamente virtuosa, conseguindo com o simples poder de um corte entre dois planos, falar mais que mil palavras. A banda sonora é imortal: aqueles acordes de Itzhak Perlman e John Williams, arrepiam sempre que os oiço. E por fim a realização, o verdadeiro ás de trunfo desta magnífica obra de arte, que é do mais cinematográfico e inspirado que Spielberg alguma vez conseguiu, com inúmeros momentos transcendentes que levam o espectador numa viagem com tanto de horrível, como de sublime.